A ciência por trás do ‘Mundo Invertido’ de Stranger Things

O série Stranger Things, que vem chamando a atenção de muita gente nos últimos dias, após o lançamento da quarta temporada na plataforma Netflix, está repleta de referências interessantes. Entre elas estão citações das obras de Stephen King, Spielberg e até mesmo da Caverna do Dragão. Mas as referências são ainda mais profundas e complexas quando você mergulha de cabeça no conteúdo da série.

Na primeira temporada, por exemplo, o professor de física dos personagens faz uma menção a Hugh Everett, citando a “Hipótese dos Muitos Mundos”, proposta em 1957, que foi a primeira a colocar no papel a ideia de “universos paralelos”, algo que hoje permeia vários estudos. Quem já assistiu à série sabe que o próprio “Mundo Invertido” de Stranger Things é um universo paralelo por si só. Mas vamos falar um pouco sobre a teoria proposta por Everett.

O físico americano, em um primeiro momento, teorizou a sua hipótese com base na sua inquietação a respeito de uma característica da física quântica. A premissa que tirava o sono de Everett era a de que se nós somos uma partícula, nós não somos de fato nós mesmos, e sim uma nuvem. Da mesma forma que as nuvens que nós vemos no céu são feitas de água, a “nuvem” neste caso seria formada por várias versões da nossa individualidade.

O problema disso tudo é que, quando alguém nos visitasse, esta pessoa não veria essa nuvem cheia de clones nossos, e sim apenas uma das infinitas versões da nossa individualidade. Todas as outras, neste momento, deixariam de existir. Pode parecer loucura, e talvez seja mesmo, mas é assim que funciona a física quântica.

Quando pensamos, por exemplo, em um elétron, ele é na verdade uma “nuvem de probabilidades”. Ao observarmos um elétron, nós temos teoricamente 20% de chance de encontrar o elétron em uma parte da “nuvem”, 99,7% de encontrá-lo em outra, 5,14% em uma terceira… Nunca 100%, nunca 0%. Mas todas essas possibilidades, ainda que pareça estranho, são reais. É como se, individualmente, elas correspondessem a um elétron diferente. Em outras palavras, o mesmo elétron poderia estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Quando você encontra um elétron no ponto da nuvem em que ele tinha 5,14% de chance de aparecer, outros infinitos pontos da nuvem deixam de existir. Teoricamente, é como se infinitos elétrons tivessem abandonado o Universo para que a nuvem de probabilidades deixasse que apenas uma partícula existisse de fato. Em outras palavras, o elétron estava onipresente nas inúmeras partes da nuvem, mas ao encontrá-lo em um ponto específico, todos os outros automaticamente somem.

E na teoria de Everett, cada um desses elétrons que deixam de existir vão para um universo paralelo diferente. Para ele, encontrar um elétron em um dos pontos da nuvem não faz com que todos os outros simplesmente evaporem. Na verdade, para o físico, o que acontece é que os elétrons se dividem em cópias infinitas, espalhadas por uma igualmente infinita quantidade de universos paralelos.

A ideia de Everett não é totalmente maluca, ainda que possa parecer. A teoria prevê que não há apenas um universo, e sim uma quantidade gigantesca de “multiversos”. Supostamente, em um desses universos você nunca nasceu, enquanto em outro talvez a Terra não exista, e em um terceiro talvez você seja o camisa 10 do Barcelona e esteja prestes a ganhar a Bola de Ouro. Mas a grande pergunta é, será que nós podemos entrar em contato com esses outros universos? Na prática, obviamente, a resposta é não, mas as coisas são um pouco mais complexas.

De acordo com a física que temos hoje em dia, outros universos podem existir desde que não se sobreponham à nossa dimensão. Theodor Kaluza, físico do início do século 20, teorizou que, caso nosso universo tivesse quatro dimensões de espaço (ao contrário das três que temos na verdade), a gravidade poderia funcionar com base nas equações do eletromagnetismo.

Mas para salvar a ideia de Kaluza, o físico Oscar Klein surgiu com outra ideia, que posteriormente deu origem à história da formiga dentro de um canudo, que você já deve ter ouvido. Mas caso você nunca ouvido falar sobre isso, explicamos: Pense em um canudo gigantesco, maior do que um estádio de futebol, por exemplo, Agora, pense que uma formiga foi colocada lá dentro por alguém. Do ponto de vista da formiga, o canudo é tudo o que ela conhece, e por mais que ela dê voltas e voltas lá dentro, ela dificilmente vai conseguir sair dele. No entanto, para quem vê de fora, à distância, o canudo parece apenas uma linha extremamente fina e unidimensional. A circunferência por onde a formiga pode passar a sua vida inteira caminhando, para quem vê de longe, sequer parece existir.

A partir desta ideia, que é conhecida como “conceito das dimensões enroladas”, surgiu uma outra história bastante contada pelos professores de física: a da “pulga e do equilibrista”, que inclusive serve como título para um dos episódios da série Stranger Things. O equilibrista nesta história somos nós, que podemos apenas andar para frente ou para trás em cima da corda, que serve como uma analogia para a única dimensão de espaço que temos.

A corda, por sua vez, é o canudo proposto por Klein, por onde a pulga pode se movimentar livremente, atravessando todas as outras dimensões de espaço. Hoje em dia, vários físicos se dividem em relação à teoria das cordas, que surge de todos esses conceitos misturados. Os que acreditam mais fervorosamente nela dizem que o nosso mundo tem nove dimensões – sendo seis “enroladas” e outras três, que nós podemos vivenciar, “estendidas”.

No fim das contas, tudo isso não passa de uma teoria, como os próprios personagens da série fazem questão de lembrar em alguns momentos da trama. Os próprios físicos que acreditam nestes conceitos dizem que, para “furar” uma dimensão enrolada seria necessário exercer uma força gigantesca, que nós ainda não temos condições de produzir.

Edward Witten, do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, é um dos nomes mais respeitados quando o assunto é a discussão acerca do mundo multidimensional. E para ele, o multiverso é composto por vários universos diferentes, cada um com nada menos que 10 dimensões.

Essas 10 dimensões, para Witten, são “envelopadas” por uma 11ª dimensão, que serve como plataforma para que todas as outras flutuem. Na prática esta 11ª dimensão tocaria todas as outras, e talvez seja por isso que a personagem principal da série ‘Stranger Things’ seja chamada justamente de ‘Eleven’.

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