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Afinal, o que é pseudociência e qual é seu problema?

A pseudociência é sempre perigosa porque polui a cultura e, quando se trata de saúde, economia ou política, ameaça a vida, a liberdade e a paz.”

— Mario Bunge

Um dos grandes problemas na atualidade são as ditas pseudociências. Mas afinal, o que é pseudociência? Como podemos diferenciá-la da ciência? Nós devemos nos preocupar com a pseudociência?

Sabemos que a ciência, por exemplo, não sabe tudo, e por este motivo devemos estar com a mente aberta para estudar determinados fenômenos. Mas têm alguns problemas. Algumas hipóteses ou ideias, às vezes, não podem ser testadas através do método científico, seja por falta de tecnologia ou simplesmente por violar alguma lei natural (mundo natural), e isso é um dos critérios que podem definir o status de científico.

Para clarificar o que estou dizendo, podemos usar dois exemplos, sendo o primeiro um exemplo “cientificamente” coerente e o segundo “cientificamente” incoerente:

1. A “Teoria de Cordas” é basicamente uma hipótese que está passando por um processo de transição, isto é, de sua fase inicial (hipótese) para uma prototeoria, o problema é que atualmente não temos tecnologia capaz de testá-la, o que impede de alcançarmos resultados conclusivos e, consequentemente, evidências que nos apontem a um determinado caminho. Mas podemos especular o que aconteceria se ela fosse testada, por exemplo, poderíamos concluir que de fato elas existem, ou no pior dos casos, que elas não existem – o que, provavelmente, resultaria no abandono da mesma (veja mais aqui).

2. A “Hipótese de um Deus Metafísico” é uma hipótese filosófica do qual se acredita que Deus seja uma entidade sobrenatural que vive num mundo aquém do natural. Infelizmente, é comum nos depararmos com as seguintes alegações:

“Deus poderia ser provado pela ciência, mas para isso,
a mesma deveria deixar de ser tão materialista”;

ou

“Os cientistas deveriam ter a mente mais aberta,
para evitar que ceticismo os cegue”.

O problema é que estas alegações fogem do próprio escopo do que é ciência. Para começar a ciência procura entender o mundo como ele realmente é, e não como gostaríamos que fosse, isto é, a ciência não quer saber da sua ou da minha crença ou opinião pessoal, ela simplesmente quer buscar a verdade não importa onde ela nos levem. Para entender o mundo, a ciência precisa se fixar naquilo com que conseguimos interagir enquanto seres naturais, ou seja, no mundo natural. Os cientistas devem reconhecer que o mundo natural é onde a nossa ciência se aplica.

A ciência trabalha com um método bem abrangente de investigação e possui um mecanismo de autocorreção na construção do conhecimento científico – o método científico. Mas é importante ressaltar que a ciência evoluiu mantendo em sua base uma visão natural de mundo. O método empírico, o método científico, a própria ciência foi construída a partir deste conceito, afinal, não seria possível construir conhecimento testável a partir de nossas elucubrações filosóficas constituídas a partir de conceitos espiritualistas ou sobrenaturais. Simplesmente, não há como testar uma crença que foge da nossa própria compreensão de realidade. Forçar a ciência a buscar tais respostas deste modo, é agir desonestamente ignorando toda a sua base epistemológica. Mas podemos usar a filosofia como um exercício de reflexão para tentar, ao menos, entender o nosso lugar no universo sem nos preocupar com os critérios de falseabilidade, mas por outro lado, a ciência pode estudar o porquê acreditamos que existe algo além do mundo natural, ou seja, estudar o comportamento e o cérebro humano a fim de entender o porquê nós, seres humanos, comumente se apegamos às crenças sem quaisquer fundamentos lógicos, racionais e científicos.

Nos últimos 100 anos, a ciência fez grandes progressos num ritmo acelerado, mostrando-se eficaz naquilo que se pretende buscar, tanto no campo da Física com Einstein, como no campo da Biologia, por este motivo, para algumas pessoas, a ciência virou sinônimo de “verdade absoluta”, mesmo que ela assuma que essa posição não coincide com os seus princípios teóricos.

Este conforto em acolher a ciência do mesmo modo que uma mãe acolhe um filho, levou a alguns problemas no século XX, por exemplo, com o empirismo lógico de um lado e de outro, movimentos irracionalistas “pós-modernos”. Mas a ideia deste texto não é entrar em discussões sobre tais correntes, mas sim em demonstrar o que esta segurança absoluta e dogmática, nos trouxe de tão prejudicial.

Ultimamente os pseudocientistas – àqueles que distorcem a ciência para fundamentar dogmas e crenças pessoais – se passam por entendedores da ciência argumentando que a mesma possui todas as ferramentas necessárias para entender um mundo alternativo – o mundo espiritual – do qual, “cientistas céticos se recusam a aceitar por medo de alguma represália de seus superiores”. Basicamente a ideia é criticar a ciência, ao mesmo tempo, que a usam para fundamentar suas crenças de maneira desonesta, isto é, fundamentando suas ideias não por evidências, não por experimentos, não por resultados replicáveis por outros cientistas, mas sim através de falsos jargões científicos e matemática para dar uma falsa aparência de que tal ideia possui consistência lógica e matemática. Claro que existem outros meios para dar falsas consistências a estas ideias, mas este é apenas um dos vários modos existentes para se criar uma pseudociência.

É importante ressaltar que foi o Filósofo da Ciência, Karl Popper, que se preocupou em criar uma teoria para separar a ciência da não-ciência (onde está inclusa a pseudociência). Popper deu grandes colaborações para a Filosofia da Ciência, além de ser um dos primeiros a definir “o que é uma teoria científica”, a partir daí vem à ideia de falseabilidade, que basicamente é o conceito que afirma que para uma teoria ser científica, ela deve ter a capacidade de ser falseada, isto é, de uma teoria ser provada falsa, além da capacidade de fazer mudanças para adequá-la às evidências. Antes de Popper, não havia delimitação, por exemplo, entre Astrologia e Astronomia, e nem Alquimia e Química, ambas eram tratadas com o mesmo valor de verdade – apesar da Astrologia e da Alquimia nunca terem dado contribuições significativas para às suas ciências (Astronomia e Química).

Separando a ciência da pseudociência

Então, como poderíamos caracterizar e detectar sinais de pseudociências? A resposta é simples, a pseudociência sempre vai ter pelo menos duas das dez características a seguir descritas por Mario Bunge, Físico e Doutor em Filosofia da Ciência:

01. Ela invoca entes imateriais ou sobrenaturais inacessíveis ao exame empírico, tais como força vital, alma imaterial, criação divina, destino, memória coletiva e necessidade histórica.

02. É crédula: às vezes, não submete suas especulações a prova alguma.

03. É dogmática: não muda seus princípios quando falham nem como resultado de novas descobertas. Não busca novidades, está ligada a um corpo de crenças. Quando muda, o faz apenas em detalhes e em resultado de desavenças no rebanho.

04. Rejeita a crítica, herbicida normal na atividade científica, alegando que está motivada por dogmatismo ou por resistência psicológica, recorre a argumentos falaciosos ao invés de argumentos racionais.

05. Não encontra e nem utiliza leis gerais. Os cientistas, por outro lado, buscam ou usam leis gerais.

06. Seus princípios são incompatíveis com alguns dos princípios mais seguros da ciência. Por exemplo, a telecinese contradiz o princípio da conservação de energia. E o conceito de memória coletiva contradiz a obviedade de que só um cérebro individual pode recordar.

07. Não interage com nenhuma ciência propriamente dita. Em particular, nem psicanalistas e nem parapsicólogos têm tratado com a neurociência. À primeira vista, a astrologia é a exceção. Mas apenas toma sem dar nada em troca. As ciências propriamente ditas formam um sistema de componentes interdependentes.

08. É fácil: não requer uma larga aprendizagem. O motivo é que não se funda sobre um corpo de conhecimentos autênticos. Por exemplo, quem pretende investigar os mecanismos neurais do esquecimento ou do prazer terá de começar a estudar neurobiologia e psicologia, dedicando vários anos a trabalhos de laboratório. Por outro lado, qualquer um pode recitar o dogma de que o esquecimento é efeito da repressão, ou de que a busca do prazer obedece ao “princípio do prazer”. Buscar conhecimento novo não é o mesmo que repetir ou mesmo inventar fórmulas vazias.

09. Só a interessa o que possa ter uso prático: não busca a verdade desinteressada. Nem admite ignorar algo: tem explicação para tudo. Mas seus procedimentos e receitas são ineficazes por não se fundamentarem em conhecimentos autênticos.

10. Mantém-se à margem da comunidade científica. Seus sectários não publicam em revistas científicas e nem participam de seminários ou congressos abertos à comunidade científica. Os cientistas, por outro lado, expõem suas ideias à crítica de seus pares: submetem seus artigos a publicações científicas e apresentam seus resultados em seminários, conferências e congressos.

Creio que a partir de tais características qualquer pessoa estará apta para detectar possíveis indícios de pseudociências, mas é importante ler alguns artigos complementares sobre o assunto, antes de fazer qualquer julgamento epistemológico entre alguma área do conhecimento (veja mais informações sobre os critérios de demarcação entre ciência e pseudociência aqui).

É importante ressaltar que algumas pseudociências já foram testadas através do método científico. Algumas se mostraram ineficazes, falhas, e às vezes, com resultados inconclusivos. Entretanto, os pseudocientistas defendem a ideia de que algumas pseudociências podem vir a se tornar ciências no futuro, mesmo não demonstrando quaisquer indícios de que elas tenham um futuro promissor, e ignorando que são as novas áreas do conhecimento, isto é, as protociências, que poderiam vir a se tornar definitivamente ciências algum dia (veja mais aqui).

A pseudociência é inofensiva?

Muitas pessoas acham que a pseudociência é inofensiva, porém estas mesmas pessoas esquecem que algumas pseudociências, são respectivamente das áreas da saúde.

Vamos usar como exemplo a “medicina alternativa”, como o próprio nome já diz, “alternativa”, significa que não é baseada em evidência.

A grande preocupação dos cientistas e médicos é para que estes métodos “alternativos” não substituam os tratamentos convencionais, pois dependendo da gravidade do problema de um paciente, tais métodos não seriam eficazes ou poderiam fazer com que um determinado problema se agrave.

Um caso famoso que representa bem as consequências negativas da pseudociência, por exemplo, é o caso de Steve Jobs. Quando ele foi diagnosticado com câncer no pâncreas, ele recusou-se ao tratamento médico convencional (da quimioterapia à intervenção cirúrgica). Por quase nove meses, o cofundador da Apple, adotou um método de “recuperação” alternativo, que consistia numa dieta à base de ervas, raízes, sucos, além de aplicações práticas de acupuntura. O doutor Ramzi Amri, da Universidade de Harvard, afirmou que seu tipo de câncer era “tratável” se tivesse sido iniciado o tratamento desde sua fase inicial. Jobs não concordava com a ideia de cirurgia, segundo ele, isso seria “uma violação a seu corpo”. Quando ele decidiu procurar à ciência, seu câncer já havia se agravado. Seu biógrafo afirma que notava um arrependimento nas palavras de Jobs, que faleceu em outros de 2011 com 56 anos.

Com base neste trágico acontecimento, fica a lição de não confiar jamais em métodos alternativos, entre outras pseudociências, e lembre-se:

Alegações extraordinárias, exigem evidências extraordinárias.”

— Carl Sagan

Referências

BUNGE, Mario. Cien Ideas (Tradução Universo Racionalista):
http://universoracionalista.org/pseudociencias

SMITH, Graham. DailyMail. Steve Jobs doomed himself by shunning conventional medicine until too late, claims Harvard expert:
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2049019/Steve-Jobs-dead-Apple-CEO-shunned-conventional-cancer-medicine.html

Nota do Autor

Uma versão resumida deste texto foi publicada na edição nº 01 da Revista Ateísta.

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