Cupping – a técnica polêmica usada nas Olimpíadas

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Por Steven Novella, fundador do Science-Based Medicine.

Quatro anos atrás (na época em que o texto foi escrito), enquanto assistindo os Jogos Olímpicos de 2012, eu percebi uma grande quantidade de atletas vestindo tiras coloridas de várias formas em seu corpo. Eu descobri que essas tiras eram chamadas de ‘kinesio tape’, e eram utilizadas para melhorar o desempenho, reduzir lesões e ajudar os músculos a se recuperar mais rapidamente. Eu também descobri que essas reivindicações eram totalmente absurdas.

Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, eu (e muitas outras pessoas, a julgar pelos meus e-mails) percebi que muitos atletas, especialmente os nadadores, tinham o que pareciam ser contusões circulares em suas costas, ombros e, por vezes, em várias partes do corpo. Reconheci imediatamente os sinais reveladores do ‘cupping’, um tratamento pseudocientífico que faz parte da medicina tradicional chinesa (TCM).

Pseudociência em esportes

O que o kinesio tape e o cupping têm em comum, além da falta de evidências, é que eles são imediatamente visíveis para o observador casual. Isso me levou a suspeitar que eles representam apenas a ponte do iceberg sem sentido nas Olimpíadas. Que outros tratamentos inúteis os atletas utilizam sem deixar marcas visíveis na pele?

Os esportes competitivos representam um campo fértil para a pseudociência. Atletas procuram qualquer coisa que lhes dê vantagem. Mesmo a falsa crença de que alguém tem uma vantagem pode levar a um ligeiro benefício de efeitos placebo. Treinadores provavelmente não se importam se o benefício é inteiramente psicológico, tudo que importa para eles é a vitória. Esta mesma psicologia também levou a superstições desenfreadas no esporte. Eu não acho que alguém um dia irá propor um mecanismo sério que alegue que lamber um morcego faz com que uma pessoa corra mais rápido. Mas isso não muito diferente que propor mecanismos baseados em flagrante pseudociência médica.

A vulnerabilidade dos atletas a superstições e efeitos placebo resultou em uma indústria que visa profissionais ou atletas de elite para utilizá-los como endosso para seus produtos, na esperança de que atletas de fim de semana comprem também o produto. Essa é a principal preocupação acerca de Michael Phelps e suas contusões circulares. Ele é uma propaganda ambulante para a pseudociência.

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Cupping

Como muitos tratamentos alternativos, o cupping começou como uma terapia totalmente baseada em superstições, parte de uma cultura pré-científica, sem a menor ideia dos mecanismos fisiológicos da saúde. O cupping consiste em colocar um copo de vidro contra a pele e, em seguida, criar um vácuo parcial no copo, a fim de sugar o sangue para a pele. Tradicionalmente isso era feito quando um incenso na parte superior do copo, para aquecer o ar. No chamado ‘wet cupping’, o praticante perfura a pele e deixa o sangue fluir. O propósito disso era remover “sangue estagnado, expelir calor, tratar febre alta, perda de consciência, convulsão e dor”. Bem, isso é o que alguns praticantes de MTC dizem hoje. Antigamente o objetivo era “purificar o ‘chi'”, uma palavra que significa sangue, ou a energia dentro do sangue.

Tal como acontece com muitas formas de tratamentos antigos, os praticantes modernos usam as mesmas técnicas, ou semelhantes, mas simplesmente alteram as alegações que fazem, para que soem mais aceitáveis para os ouvidos modernos. Uma manifestação disso são as reivindicações específicas sobre a utilidade do tratamento. As doenças-alvo tendem a gravitar em direção a sintomas comuns como dores na região lombar, dores musculares, nas articulações, na cabeça e fadiga. Esse é um sinal claro de que as alegações feitas para esses tratamentos estão sendo conduzidas pelas forças do mercado, e não por plausibilidade, evidência, pesquisa ou ciência.

Climatologia Geográfica
Acupuncturist working on patient

Outra manifestação são os supostos mecanismos citados para justificar o tratamento. Elas tendem a seguir as narrativas populares, e são impulsionadas pelas forças do mercado, não pela ciência. Séculos atrás, o cupping liberava o chi, hoje é usado para expulsar toxinas não identificadas, aumentar o fluxo sanguíneo ou ativar o sistema imunológico. Não há nenhuma razão convincente para acreditar que o cupping faz qualquer uma dessas coisas.

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Pesquisas sobre o cupping

Atualmente vivemos em um mundo onde nenhuma reivindicação médica é tão absurda que não merece investigação séria. Então, sim, há uma pesquisa médica real sobre o cupping. Eu sempre tenho sentimentos mistos sobre isso. Tal pesquisa é claramente um desperdício de recursos, e também é provavelmente antiética. Também não afeta a prática dos proponentes. É bom ter pesquisa real para analisar e apontar, mas no geral não vale a pena.

Os estudos publicados sobre cupping são exatamente o que você esperaria que fossem (pelo menos se você é um leitor regular do SBM – portal onde foi publicado originalmente o artigo – ou tem qualquer familiaridade com a pseudociência médica). Permitam-me começar com o que considero ser a revisão definitiva: uma análise de revisões sistemáticas por Edzard Ernst, que conclui:

Em conclusão, esta visão geral dos SR’s sugere que o cupping pode ser eficaz para reduzir a dor. A evidência é insuficiente para fazer outras indicações. Todos os SR’s são baseados em estudos primários com alto risco de viés. Por conseguinte, permanece uma incerteza considerável quanto ao valor terapêutico do cupping.

Sua revisão e minha leitura da pesquisa publicada são muito consistentes com o padrão típico de pesquisa tendenciosa sobre um tratamento que não funciona. Nós vemos grandes quantidades de estudos de pouca qualidade, que quase sempre gerar falsos resultados positivos. Os estudos de maior qualidade tendem a ser negativos. Pode haver um resíduo de estudos positivos que lidam com sintomas subjetivos, porque esses são os mais difíceis de controlar com rigor. Nunca vemos um resultado objetivo e positivo. Além disso, os resultados positivos tendem a se agrupar em grupos de pesquisa altamente preconceituosos. Ernst aponta que a maioria dos estudos positivos e análises sobre o cupping vem da China. Há bons motivos para suspeitar de uma abordagem tendenciosa em tais estudos, e análises anteriores mostraram, por exemplo, que 100% dos estudos sobre acupuntura publicados na China eram positivos. Tais resultados uniformemente positivos são estatisticamente impossíveis sem um viés sistemático.

Outras revisões sistemáticas, incluindo as de pesquisadores favoráveis, são igualmente convincentes. Por exemplo, uma revisão de 2013 sober o cupping como tratamento para dor lombar incluiu apenas um ensaio randomizado, que mostrou que “no RCT, a taxa efetiva do grupo de ‘wet cupping’ foi semelhante à do grupo de espera (p>0,05)”. Eles incluíram RCT’s, relatos de casos e editoriais, porque:

“Embora os RCT’s forneçam uma maior qualidade de evidência, incluímos não-RCT’s nesse estudo porque o número limitado de RCT’s não forneceram provas convincentes”.

A linha de fundo de tudo isso é que a pesquisa sobre o cupping é principalmente negativa ou de má qualidade, e com caráter tendencioso. Não há evidência convincente para qualquer efeito fisiológico real do cupping. Os apologistas podem argumentar que pelo menos a terapia é benigna, mas calma lá… Há uma tendência de supor que um tratamento é benigno apenas porque ninguém se incomodou em documentar riscos potenciais. Por exemplo, há um relato de caso de cupping claramente causando a propagação da psoríase em um paciente -as lesões psoriáticas ocorreram em um estranho padrão circular, chamando a atenção dos dermatologistas que estavam tratando o paciente.

Climatologia Geográfica

Conclusão:

O cupping não é diferente da acupuntura, frenologia ou qualquer outra pseudociência médica. O tratamento é baseado em superstições pré-científicas, e simplesmente foi remodelada para comercializar mais eficazmente o tratamento para os clientes modernos. Agora, é apenas mais um tratamento alternativo, sem plausibilidade, sem evidências convincentes de eficácia.

É lamentável que o atletismo de elite, incluindo os Jogos Olímpicos, seja uma cama quente para a pseudociência. Os Jogos Olímpicos são supostos para celebrar a excelência, trabalho duro, dedicação e competição amigável. Agora também representa a credulidade e a superstição, e espalha essa crédula para o mundo.

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