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“Eles literalmente querem ser máquinas”, diz escritor Mark O’Connell sobre os transumanistas

Por Angela Chen | The Verge
Traduzido e adaptado por Leonardo Ambrosio.

O lugar mais estranho que o escritor Mark O’Connell já esteve foi na Fundação Alcor de Extensão da Vida – onde cadáveres são preservados em tanques cheios de nitrogênio, no caso terem a possibilidade de serem ressuscitados com tecnologias futuras. De acordo com o que ele disse ao The Verge, por lá é possível ver os cilindros de aço inoxidável com cadáveres e cabeças cortadas. “Essa imagem eu levaria comigo para o túmulo – seja ele túmulo convencional ou um cilindro refrigerado”, disse.

O’Connell visitou a Alcor enquanto estava escrevendo “To Be a Machine”. O livro se passa no mundo do transumanismo – das pessoas que querem transcender os limites do corpo humano usando a tecnologia. O transumanistas querem serem mais fortes e mais rápidos, como ciborgues. E querem resolver o “problema” da morte, seja congelando seus corpos através da criogenia ou fazendo um upload de sua consciência. Esse ideia existe pelo menos desde os anos 80, mas se tornou mais visível na última década, principalmente por conta dos avanços tecnológicos.

O’Connel soube dos transumanistas há anos, mas a ideia ficou praticamente esquecido em sua mente até o nascimento de sua filho – o que fez com que ele passasse a gastar mais tempo pensando em questões como a morte. O The Verge conversou com O’Connell sobre a filosofia por trás do movimento, suas experiências no mundo transumanista, e sobre suas crenças e esperanças para a humanidade.

Como, exatamente, você descreve o transumanismo? Os médicos, por exemplo, estão interessados em aumentar a vida humana, mas você não pode tão facilmente dizer que todos os médicos são transumanistas.

Bem, existe uma forma de definir o transumanismo que é tão ampla que você vai estar quase descrevendo um cientista. Existem muitas definições diferentes, mas para mim um transumanista é alguém que pensa que poderíamos incorporar tecnologia aos seres humanos, usando a evolução tecnológica para acelerar a evolução do ser humano. Essas pessoas não querem ser humanas de uma forma muito radical. Elas querem ser máquinas, literalmente.

É um movimento dividido, com muitas crenças diferentes. Por exemplo, nem todos concordam com a criogenia. É quase como falar com um católico que diz: “Eu não fiz comunhão, não vou à Missa, mas eu ainda sou católico”. Eles acreditam no princípio geral, mas não concordam com todas as coisas pelo caminho. Então você vê pessoas dizem: “Eu deveria realmente me associar à Alcor, fazer a papelada e garantir meu futuro”, da mesma forma que você pessoas da minha geração que dizem: “eu realmente deveria começar a pensar na minha aposentadoria”.

É comum se frustrar com aquilo que nossos corpos não podem fazer. Mas daí para implantar componentes eletrônicos abaixo da pele e congelar o próprio corpo após a morte, é um grande passo. O que move as pessoas que se consideram transumanistas?

Todos eles têm uma história parecida, todos surgem de maneira semelhante. Quando você fala sobre a infância deles, a maioria era obcecada não apenas pela morte, mas com as limitações gerais do corpo humano… As frustrações de não ser capaz de fazer certas coisas, não ser capaz de viver para sempre, explorar o espaço, não ser capaz de pensar da forma como eles gostariam. Todos são obcecados pelas limitações humanas. E todos tiveram esse momento em que foram para a Internet, descobriram que havia uma comunidade de indivíduos com as mesmas preocupações e filosofias, e então se tornaram transumanistas, mesmo sem saber da existência desse nome.

Eles são normalmente pessoas ligadas à tecnologia e ciência. A grande maioria é de homens brancos, e isso diz muito sobre privilégio. É muito difícil se preocupar com o fato de que você vai morrer um dia se você precisa lidar com racismo, sexismo, ou simplesmente se você precisa alimentar sua família. O transumanismo parece vir de uma posição de privilégio. Grandes proponentes, como Elon Musk, meio resolveram todos problemas humanos básicos através da tecnologia, e todos possuem quantidades infinitas de dinheiro para gastar.

Quais ideias do transumanismo pareceram mais estranhas para você? Alguma delas mudou depois de escrever o livro?

Quando eu comecei a olhar para as ideias básicas por trás do transumanismo, o que eu achei mais ‘alienado’, estranho, e completamente especulativo era a ideia de sair do seu corpo e fazer um ‘upload’ do seu cérebro. Isso é chamado de “emulação total do cérebro”. Esse é o ponto final de várias ideias transumanistas.

Mas quando eu conheci Randal Koene (da Carboncopies, uma fundação que incentiva pesquisas na emulação total do cérebro), eu achei ele incrivelmente carismático. Eu me impressionei pela tensão entre o que parecia completa insanidade e o que ele estava tentando me dizer – a loucura da ideia de que ele pode eventualmente converter a mente humana em um código. E ele explicou tudo de maneira clara, fazendo tudo parecer, se não iminentemente possível, bastante sensato. Eu fui muito influenciado por ele e de uma forma um pouco estranha o trabalho de Randal parece ser uma das coisas menos malucas.

Você foi influenciado pela filosofia geral? Você menciona no livro que não se considera um transumanista. Por que?

Quando eu estava com os biohackers da Grindhouse, em Pittsburgh, uma noite nós estávamos no porão tentando imaginar nosso futuro. Um deles falou sobre o desejo de se tornar esta coisa desencarnada, infinitamente poderosa, que poderia ir para qualquer lugar no universo e abranger tudo. Quando você conversa com um transumanista, de uma forma ou outra, todos aspiram a conhecer tudo e a serem basicamente um Deus. E eu meio que pensei que não me relaciono com nada disso. A ideia de ser tão poderoso e onipresente praticamente não existe em mim. Eu não posso justificar isso.

Eles diriam, você tem a Síndrome de Estocolmo do corpo humano. Mas esse tipo de ideia é pouco atraente para mim. Não consigo entender por que essa seria sua ideia de valor humano. Eu estive o tempo todo querendo entender essas ideias e o que significaria para essas pessoas ser um pós-humano, e acabei mais confuso sobre o que significava ser um ser humano, em primeiro lugar. Posso me identificar com o desejo de evitar a morte, mas não consigo querer viver indefinidamente. Conversas com essas pessoas e gastar tempo com essas ideias estranhas sobre mecanismos e corpos humanos me forçou a me posicionar não como um ser humano, mas como um humano, um mamífero. Para mim, o que significa ser humano está ligada de maneira inseparável com a condições de ser um mamífero, frágil, fraco, e amar outras pessoas por sua fragilidade.

Falando de limitações do corpo humano, e as deficiências? Quando você está tão concentrado em transcender o corpo humano e suas limitações, isso significa denegrir a dificiência?

Os transumanistas vêem a deficiência de uma maneira completamente oposta. As pessoas com quem conversei disseram: “Veja, somos todos deficientes de uma forma ou outra”. Por exemplo, havia uma proposta para tornar a cidade de Los Angeles mais acessível para os cadeirantes. E o candidato presidencial transumanista, Zoltan Istvan, escreveu um editorial bizarro e equivocado sobre como este era um uso indevido de fundos públicos, que na visão dele veriam ser utilizados para transformar os seres humanos em sobre-humanos. O que ele estava querendo dizer é que ser fisicamente debilitado não deveria ser uma barreira para se tornar um super-homem. Então, o dinheiro deveria ser investido em próteses de toda a extensão do corpo. Muitas pessoas deficientes ficaram ofendidas, e sequer entenderam o motivo disso tudo.

Você acredita que as ideias transumanistas vão ganhar crédito e se tornar mais convencionais?

Eu não tenho bola de cristal, então não sei mais sobre o futuro do que sabia quando comecei a observá-lo. Mas eu posso ver que talvez a vida humana mude radicalmente no futuro, de forma com que tudo isso se torne passado. E isso não ocorre por conta da agitação causada pelos transumanistas, mas porque a tecnologia tem um “momentum” interno que continua rodando, e não há nada que possamos fazer sobre isso.

Escrever esse livro foi como escrever sobre um momento cultural muito particular. É um fenômeno cultural muito específico, que ganhou espaço no Vale do Silício por razões que parecem óbvias. A minha opinião é de que existem muitas pessoas no mundo que jamais se intitulariam transumanistas, mas compartilham muitas dessas ideias sobre as possibilidades do futuro do ser humano. O Vale do Silício gerou uma quantidade absurda de dinheiro e poder cultural, e esse senso de possibilidade acerca da tecnologia. Nós pensamos que podemos consertar tudo com a tecnologia, então a ideia de que somos capazes de resolver a morte – a condição humana – parece ser um resultado natural disso tudo.

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