Evidências genéticas proporcionam novas constatações sobre a misteriosa civilização do Chaco

Por Bec Crew | ScienceAlert
Traduzido e adaptado por Leonardo Ambrosio.

Arqueólogos dizem ter descoberto quem comandava a antiga civilização do Chaco, no Novo México – que acreditam ter sido a cultura mais influente no sudoeste americano há mais de 1200 anos. Novas análises de DNA feitas a partir de nove pessoas sepultadas em uma cripta no centro de Pueblo Bonito identificaram tais indivíduos como comandantes de uma dinastia poderosa de nativos americanos. Os pesquisadores dizem que tal dinastia passava de geração em geração, através das mães.

“Pela primeira vez, estamos falando de uma família, ou de um grupo que controlou Pueblo Bonito por mais de 300 anos”, disse um dos integrantes da equipe, Steve Plog, da Universidade da Virginia. “Essa é a maior evidência de hierarquia social no antigo sudoeste”.

Há mais de 100 anos, em 1896, foi encontrada uma casa gigante em Pueblo Bonito, no Novo México, onde foram encontrados os corpos de 14 indivíduos. Esses corpos acompanhavam colares, braceletes e outras joias feitas a partir de turquesa e conchas, formando o “mais rico funeral conhecido no sudoeste americano”, como destaca a equipe. A localização da cripta e o luxo com o qual eram sepultadas as pessoas indica que seja qual hierarquia fosse empregada nesta sociedade, que floresceu entre 800 e 1250 d.C, essas 14 pessoas deveriam estar no topo.

Agora, análises genéticas dos restos mortais de nove dessas pessoas descobriram que todas pertenciam a uma mesma linha maternal – uma dinastia toda baseada em suas progenitoras, que existiu por 300 anos, de acordo com os pesquisadores. Isso de fato é algo pouco familiar, com a maioria das sociedades do mundo antigo terem sido comandados por linhas hereditárias baseadas nos homens e focadas em reis, príncipes e etc.

“É evidente que por algum tempo esses indivíduos eram venerados, com base no tratamento excepcional que recebiam após a morte. A maioria das pessoas do Chaco eram enterradas fora do assentamento, e nunca com tantos bens exóticos”, disse Adam Watson, do Museu Americano de História Natural.

Os resultados dos testes revelaram que os nome espécimes possuíam DNA mitocondrial idêntico – tal informação genética é passada apenas a partir da mãe para seus filhos. Isso significa que todos tinham uma mesma mulher ancestral. Você pode ver uma possível árvore genealógica abaixo. As linhas vermelhas mostram a linha maternal, e os pontos azuis indicam as relações de avós-netos e mães-filhas.

Climatologia Geográfica
T. Harper; Kennet et al. Nature Communications

A escavação original em Pueblo Bonito, realizada há mais de cem anos, revelou pelo menos 12 casas de tamanho considerável no Cânion do Chaco, e dezenas de assentamentos onde são imaginadas as fronteiras do Novo México, Colorado, Arizona e Utah. Desde tal descoberta, os arqueólogos tentam descobrir se a civilização que viveu no Chaco possuía uma sociedade igualitária ou hierárquica, e os pesquisadores por trás da análise de DNA mais recente dizem que finalmente encontraram a resposta – uma hierarquia dominada pela linha feminina.

Entretanto, são poucas as conclusões definitivas, principalmente quando estamos tratando de sociedades antigas que não deixaram nada escrito ou registrado sobre sua estrutura social. Enquanto alguns pesquisadores concordam com as interpretações da equipe, outros ainda ocupam uma posição de cautela, dizendo que o grupo poderia ser um de vários grupos de ‘elite’ que podem ter se espalhado pelo local.

Mas a pesquisa em questão agitou os especialistas por utilizar dados de DNA para identificar evidências de estruturas sociais – algo que tradicionalmente não era feito até então no campo da arqueologia. “Eu entendo que esse estudo possa gerar alguma controvérsia, em termos de utilizar dados biológicos para determinar estruturas sociológicas”, disse Angelique Corthals, antropóloga forense da Universidade da Cidade de Nova Iorque, que não esteve envolvida no estudo, em entrevista ao Science. “Mas os autores construíram este estudo de maneira muito convincente, utilizando dados arqueológicos e genômicos”.

“Esses resultados tem o poder de transformar pela forma como demonstram o poder das pesquisas de DNA e sugerem que alguns membros de uma linha maternal particular formaram uma elite hierárquica com mais prestígio que a maioria dos membros da sociedade”, adicionou Robert Hard, antropólogo da Universidade do Texas.

É necessário dizer que a pesquisa causou certa controvérsia também em questões éticas. Rebecca Tsosie, professora de leis de nativos americanos, da Universidade do Arizona, manifestou sua insatisfação ao Scientific American. “Estou consternada por não ter sido feito um esforço no sentido de envolver líderes tribais contemporâneos antes de empreender e publicar este estudo”, criticou. De acordo com ela, a pesquisa é um “exemplo primordial” de “um estudo feito por estrangeiros culturais para ditar a verdade da história e estrutura de governança da cultura dos nativos”. Esperançosamente, os indivíduos remanescentes das civilizações do Chaco terão a possibilidade de trabalhar diretamente com os pesquisadores enquanto estes continuam suas investigações nesta parte significativa da história dos Estados Unidos.

O estudo foi publicado na Nature Communications.

 

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