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Expedição ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo e Fernando de Noronha

A bordo do Navio Patrulha Araguari com uma tripulação de 80 pessoas fixas, constata-se que o mesmo é muito confortável contando com ambulatório médico, restaurantes, chamados de ranchos, lavanderia, área de esportes e academia, dormitórios e armas bélicas. Além de patrulhar, ele é também um navio de guerra comprado há pouco mais de três anos pela marinha do Brasil.

O navio tem como missão primordial, a proteção da chamada “Amazônia Azul”, que é a área de mar pertencente ao Brasil. O ambiente, em seu interior, é de extrema amizade e companheirismo entre toda a tripulação. Cada militar tem uma função dentro do navio e muitos fizeram cursos de aprimoramento na Inglaterra. O Araguari pertence ao 3° Distrito Naval sediado em Natal.

Nossa viagem começou em Natal no dia 19 de março de 2017, juntamente com a tripulação e os militares destacados para a manutenção da estação científica do arquipélago de São Pedro e São Paulo, além de um grupo menor, formado e liderado pelo responsável do programa Proarquipélago, o Capitão de Corveta Marco Antonio Carvalho de Souza.

Metralhadora existente no Araguari.

Foram três dias de viagem em alto mar até que chegássemos a estação científica do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, um conjunto de pequenas ilhas rochosas pertencente a Pernambuco, apesar de pertencer a este estado, ele é mais próximo do Rio Grande do Norte cerca de 1.010 km do porto de Natal.

A viagem é realmente muito desafiadora. Cada pessoa a enfrenta de uma maneira diferente e o organismo repercute essa realidade. Algumas pessoas que embarcaram pela primeira vez ficaram enjoadas e se sentiram mal, apenas no primeiro dia de viagem. Outras, assim como eu, sentiram um desconforto mais duradouro e, como consequência, ficamos três dias acamadas, assistidas pelo enfermeiro responsável do navio 3° Sargento João Henrique de França Pereira, até nossa chegada no arquipélago.

A Estação Científica fica em alto mar, num local onde não existe vegetação, nem tampouco água potável, ausências sentidas em todo o arquipélago. As aves marinhas se apresentam em grande quantidade, principalmente os Atobás e Viuvinhas, que deixam brancas as pedras antes negras, em virtude do excesso de guano (acumulação de fosfato de cálcio resultante do excremento das aves marinhas). Em algum momento, é possível que você sofra com os ataques das aves-mães, preocupadas em assegurar a vida de seus filhotes. À primeira vista, isso é fascinante e extremamente bonito.

O arquipélago garante ao Brasil uma área de entorno de 450 mil km² (quase duas vezes o tamanho do Estado de São Paulo), uma zona econômica exclusiva que representa 40% do território marítimo do Brasil e cerca de 6% do território nacional.

Você leitor deve estar se perguntando qual o valor disso para o Brasil? Então, vejamos: isso representa maior possibilidade de exploração em alto mar, seja na pesca de peixes de grande valor comercial, seja nas pesquisas da vida marinha ou no petróleo e minérios que possam existir na área de domínio brasileiro. Mas, para que haja essa ZEE (Zona Econômica Exclusiva), é necessário que o arquipélago de São Pedro e São Paulo seja habitado durante todos os dias do ano, por isso a preocupação da Marinha em sempre deixar o local habitável.

A primeira estação científica no Arquipélago de São Pedro e São Paulo.

A primeira estação cientifica foi inaugurada em 25 junho de 1998, idealizada pela marinha e o CIRM (Comissão Interministerial para os Recursos do Mar), sendo o projeto desenvolvido pela Universidade Federal do Espirito Santo e pelo laboratório de Produtos Florestais do IBAMA. Desta forma, a estação se mostrou resistente às ações da maresia e do tempo, porém ela havia sido construída em uma área propícia a fortes ondas e ventos.

Em Junho de 2006, a primeira estação científica foi destruída por uma onda gigante, obrigando seus habitantes a saírem e se abrigarem no farol do arquipélago. Surgiu daí a necessidade de uma nova estação em um lugar mais abrigado e protegido.

A construção da segunda estação aconteceu nos anos de 2007 a 2008 e foi dividida em três etapas: primeiramente, foram construídas fundações de sapatas em concreto armado. Posteriormente, a montagem da casa e a terceira, com instalação das placas de energia solar e demais equipamentos como o dessalinizador, aparelho este que transforma a água salgada em potável. Tudo que deu bom resultado na primeira construção foi copiado e os pontos negativos foram sanados na segunda estação. Toda a montagem da casa foi feita primeiramente na base Naval de Natal, já com os estudos devidamente preparados para a montagem na dificultosa e acidentada geografia, específica do arquipélago.

Muitos recursos e organizações foram usados para a construção da nova estação, tais como a própria Base Naval de Natal, rebocador Alto Mar Alte, navio patrulha Grajaú, navio patrulha Guaíba, laboratório de Planejamentos e Projetos da UFES, Eletrobrás, Laboratório de Produtos florestais do IBAMA, e a EMBRATEL.

A atual estação cientifica conta com um alojamento para quatro pessoas, sala de estar, laboratório (não equipado por causa da alta maresia. Ali só se coletam informações para serem levadas ao continente), cozinha, banheiro, varanda, uma edificação separada do conjunto para armazenar combustível, baterias do sistema fotovoltaico e um píer por onde chegam os botes que fazem o transporte das pessoas. Possui ainda um dessalinizador desativado por falta de peças caríssimas de reposição e de poucas pessoas treinadas para manusear o equipamento. A água doce, tão necessária no arquipélago, chega através dos navios pesqueiros que são fretados pela Marinha, os mesmos que transportam os pesquisadores e ou marinheiros.

A estação científica é ocupada, constantemente, por quatro pessoas revezadas em períodos de 15 dias. A viagem é difícil e cansativa, pois são quatro dias de barco pesqueiro. Para apoio e segurança dos moradores, o barco permanece nas imediações enquanto exerce atividades pesqueiras, principalmente em busca de atum. Entretanto, outra dificuldade se tornou presente: o reaparecimento de grande número de tubarões, o que não ocorria havia muito tempo.

Embarcação que leva os pesquisadores ate o navio pesqueiro

A comunicação com o continente se faz através de equipamentos via satélite, rádios (VHF e HF). Há também uma antena de telefonia que é coordenada pela EMBRATEL, e sinal de internet que ainda necessita ser melhorada.

A cada quatro meses, em média, são enviados da base Naval de Natal ao arquipélago navios como o Araguari, que levam equipes de manutenção para pequenos reparos na estação.

Equipe de marinheiros destacados para manutenção da Estação Científica.

A construção da Nova Estação, plano para 2018.

A nova estação é uma parceria da marinha com participação da empresa Figueiredo Ferraz, e empresas privadas que fornecerão materiais, a previsão é que a nova estação esteja concluída em 2018, próximo ao aniversário de 10 anos da estação que está em uso.
Uma das fornecedoras de material para a construção da nova estação é a Gerdau, que já desenvolve estudos de desempenhos com os possíveis materiais que serão utilizados na nova obra. Os testes começaram há cerca de seis meses, com a colocação de barras de ferro e de madeiras fixadas na estação, para que se possa avaliar a degeneração do material perante a extrema salinidade presente no arquipélago. Os pilares de teste ainda não foram iniciados, mas estima-se que sejam feitos ainda este ano. Os testes são bem simples. Rochas serão perfuradas e preenchidas por uma estrutura metálica, cada uma com um material diferente e identificados por cores, para uma avaliação posterior. Nas palavras do engenheiro André Ferrari da Figueiredo Ferraz, é uma oportunidade única para as empresas avaliarem e identificarem a estabilidade dos materiais que fornecem, assim como toda a estrutura em si.

Pesquisas no Arquipélago

Existem hoje diversas pesquisas ligadas ao arquipélago de São Pedro e São Paulo, tanto com relação aos peixes, pássaros e climatologia, quanto à formação rochosa e abalos sísmicos. O arquipélago surgiu há milhões de anos fruto de uma fenda que se abriu no manto da Terra, ocasionando um efeito parecido com vulcões forçando a lava a subir para dar origem a uma cadeia de montanhas submersas onde apenas os picos aparecem. Foi exatamente assim que surgiu o arquipélago de São Pedro e São Paulo, constituído de 10 ilhotas em meio ao oceano Atlântico. O pico que pode ser observado acima do oceano tem apenas 18 metros de altura, mas a parte submersa atinge os 4.000 metros, sendo esta formação única, jamais registrada e vista em nenhum outro lugar no planeta. O local já foi observado por Charles Darwin e por diversos outros estudiosos que garantem uma biodiversidade única ao arquipélago.

A formação da rocha ganhou um nome único Peridotito complexabásico-ultrabásico de São Pedro e São Paulo por ser único no mundo, e não se ter mais registro de qualquer coisa semelhante a rocha de São Pedro e São Paulo explica o geólogo e estudante de doutorado pela Universidade Federal Paraná Leonardo Mairink Barão que estuda hoje a formação dos três arquipélagos oceânicos: Noronha, Trindade, e o de São Pedro e São Paulo.

Danielle de Lima Viana, bióloga marinha com doutorado em oceanografia biológica, fundou todos os seus estudos no arquipélago nutrindo por ele intenso amor e respeito. A pesquisadora diz que o arquipélago é um ambiente fantástico para o mundo acadêmico e que, em seus 12 anos de pesquisas, muito pôde ser observado, como o aumento do número de tubarões e o catálogo de peixes de profundidades. Salienta ainda que, o arquipélago, por ser tão afastado e quase não sofrer com a presença humana, conserva uma natureza rústica e quase virgem, onde é possível observar o comportamento animal na forma mais primitiva.

Existia a preocupação da classe acadêmica de que o arquipélago fosse tomado pelo aumento do nível do mar, porém estudos revelaram que as rochas de São Pedro e São Paulo crescem anualmente compensando assim o aumento do nível do mar.

Pesquisadora Danielle de Lima Viana.

 

Os pesquisadores não são remunerados para exercer quaisquer pesquisas no arquipélago, a marinha apenas ajuda nas questões de logísticas para se chegar ao local. Segundo a pesquisadora Fernanda Albuquerque, bióloga e estudante de doutorado pela Universidade Federal do Paraná, rumando para sua 16° viagem às ilhas, o arquipélago é subestimado, pois ainda falta um interesse em proteger aquela área da pesca e da presença humana, o que seria possível se ela fosse transformada em uma APA (Área de Preservação Ambiental), assim como acontece hoje com o Atol das Rocas e Fernando de Noronha.

Estudantes Davi Martins e Melissa Fontenelle coletando dados.

Existem ainda, pesquisas ligadas a Faculdade Federal do Ceará (UFC) e a Faculdade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) sobre a meteorologia e aos abalos sísmicos muito frequentes no arquipélago, diariamente são coletados dados dos equipamentos presentes no arquipélago. Segundo o Engenheiro de computação e técnico do laboratório de Sismologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Flauber Carlos Costa os dados coletados são enviados para a universidade e lá são apresentados para os alunos que irão estudar cada abalo e suas consequências no arquipélago. De 2011 a 2015 foram coletados dados de 300 abalos sísmicos que variam de 0.8 a 5.9 na escala Richter.

Marinha deseja ter estações científicas em todas ilhas oceânicas brasileiras.

Pensando em assegurar o conhecimento e os estudos marítimos a Marinha e a CIRM (Comissão Interministerial para os Recursos do Mar), estão com um projeto de construir uma estação científica em Fernando de Noronha para o ano de 2018, como forma de abrigar e incentivar pesquisas naquela possessão. Pensando nisso, a CIRM lançou um desafio às universidades com o intuito de dar consultoria na elaboração do projeto, e a eleita acabou sendo a PUC do Rio de Janeiro, que já havia recebido uma menção honrosa no concurso para consultoria na estação científica da Antártida, e é supervisionado pela brilhante Vera Hazan.

A elaboração do projeto foi pensando em ter uma estrutura que pudesse ser ampliada e moldada conforme a necessidade. E que ficasse próximo ao porto, para facilitar o desembarque das estruturas e materiais utilizados na obra. Pensando nisso, a CIRM escolheu um local a 300 metros do porto, que posteriormente teve que ser revisto juntamente com a administração do arquipélago porque era um local que poderia existir achados arqueológicos raros, sendo feita a escolha de um local acima do primeiro e que não compreende a área arqueológica.

A estação científica ficará próxima de um dos cartões postais de Fernando de Noronha, a igreja de São Pedro e por esse fator houve a preocupação de que a estação não obstruísse a visão da igreja. O projeto prevê que a estação tenha 7 metros de altura e 1.380m² de construção.

Futura Estação Científica de Fernando de Noronha.

A estação contará com dois amplos auditórios totalizando um número de 80 pessoas atendidas, e serão utilizados para apresentar as pesquisas para a população.

Espaço de exposição das pesquisas realizadas em Fernando de Noronha.

Contará ainda com laboratórios, quartos para hospedar os 16 pesquisadores simultâneos, espaços para convivência, vestiários, departamento de mergulho e espaço de exposições.

Laboratório acessível.

Ficou evidente que o projeto visa respeitar o ecossistema e ambiente do arquipélago, seja usando energia solar como nos recursos naturais como madeira de reflorestamento e vidros para a construção da nova estação. A estudante de arquitetura e representante do escritório de arquitetura da PUC/RJ, Priscilla Rembischewski, salienta a preocupação com a preservação e o uso de recursos naturais para a construção, sem gerar resíduos para o meio ambiente e a acessibilidade de pessoas deficientes.

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