f

Fontes de energia sustentáveis agridem o meio ambiente?

Há uma série de tecnologias geradoras de eletricidade disponíveis que produzem uma baixa emissão de carbono. Mas será que elas são realmente melhores que os combustíveis fósseis e a energia nuclear?

Para responder a essa pergunta é preciso comparar não apenas as emissões de gases poluentes por diferentes fontes de energia, mas também os benefícios para a saúde e as ameaças aos ecossistemas que energias sustentáveis podem trazer.

A produção de eletricidade é responsável por cerca de um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, e a demanda está fadada a aumentar à medida que as populações mal atendidas se conectam a esta rede, e eletrônicos e veículos elétricos se proliferam. Então, parar o aquecimento global exigirá a transformação dos meios de produção de eletricidade.

Mas é importante evitar várias armadilhas ambientais nesta transição, como a perturbação de ecossistemas e vida selvagem ou a poluição do ar, por exemplo.

Em uma pesquisa, foi analisado o impacto da geração de eletricidade a partir de fontes renováveis, usinas nucleares e o uso de combustíveis fósseis, com e sem tecnologias de captura e armazenamento de CO₂, para separá-lo e armazená-lo no subsolo. Foram contabilizados os efeitos ambientais associados à produção, operação e desmantelamento de instalações, bem como à produção, transporte e combustão de combustíveis. Em seguida, um cenário comum foi comparado a um cenário de produção de eletricidade com baixas emissões de carbono que evitará que as temperaturas médias globais subam mais de dois graus Celsius acima dos níveis pré-industriais até 2050 – o ponto que os cientistas do clima dizem que evitará mudanças climáticas perigosas.

O estudo confirma enfaticamente que os combustíveis fósseis – principalmente o carvão – traçam um destino perigoso para o meio ambiente e que a maioria dos projetos de energia renovável têm impactos menores relacionados à poluição dos ecossistemas e a saúde humana. No entanto, nenhuma fonte de energia esta livre de efeitos ambientais colaterais. A instalação da central de energia, o design do projeto e a escolha da tecnologia são questões críticas que os investidores e governos devem considerar com muito cuidado.

Brilho solar

A substituição de usinas de energia fóssil por fontes de energia renováveis, incluindo energia solar, eólica, hidrelétrica e geotérmica, reduziria diversos tipos de poluição. A magnitude da diferença quanto à poluição entre as opções de energia fóssil e algumas energias renováveis ​​é excepcional. Por exemplo, foi descoberto que todo o processo de fabricação, montagem e operação de painéis fotovoltaicos causa menos poluição do que somente o fornecimento de combustível para uma usina a carvão quando a mineração está incluída.

E quanto à pegada ambiental deixada ao fazer sistemas de energia renováveis?

A energia fotovoltaica se saiu muito bem ao ser analisada. Hoje, a produção de células fotovoltaicas usa muito menos energia do que anteriormente. As emissões de carbono por unidade de eletricidade fotovoltaica são um décimo ou menos de até mesmo as mais eficientes usinas de energia de gás natural. Os problemas de saúde humana, como doenças respiratórias causadas pela exposição a partículas, são cerca de um décimo daqueles causados por usinas de carvão modernas com equipamentos avançados de controle de poluição. Conclusões semelhantes foram encontradas quanto à poluição da água e do solo nos ecossistemas.

Mas os painéis solares exigem muito mais espaço para gerar a mesma quantidade de energia que o combustível fóssil ou geradores de energia nuclear. A cobertura de grandes áreas com painéis solares não deve ser um problema? Não necessariamente. A quantidade de terra necessária para gerar um quilowatt-hora de energia fotovoltaica é comparável à da energia do carvão, quando a terra associada à mineração de carvão é contabilizada. E cerca de metade das instalações fotovoltaicas em nosso cenário futuro poderiam ser colocadas nos telhados.

Produzir painéis fotovoltaicos requer vários metais, muitos dos quais são produzidos apenas em locais limitados. Alguns deles são altamente tóxicos. Portanto é importante pensar sobre o tratamento e a reciclagem destes resíduos.

A energia fotovoltaica, é claro, fornece eletricidade somente quando recebe a luz solar. No entanto, uma tecnologia solar diferente, chamada CSP – que concentra a energia solar-térmica e armazena luz para fazer calor -, pode ser um caminho viável para o futuro, pois oferece um desempenho similar em termos de redução de poluição e ainda oferece a opção de armazenar calor e assim gerar eletricidade de noite. A tecnologia CSP, que atualmente tem uma adoção muito baixa se comparada a PV, pode ser capaz de proporcionar um quarto da eletricidade solar em um cenário de baixas emissões.

Os efeitos ambientais da energia hidrelétrica variam amplamente. Algumas barragens causam impactos significativos no clima através das emissões de metano pela decomposição de biomassa em represas. Outras causam problemas ecológicos igualmente sérios através da destruição do habitat. Elas também podem bloquear a migração de espécies aquáticas, reduzir o fluxo de sedimentos e o transporte de nutrientes, o que afeta as planícies de fácil inundação. Por outro lado, os reservatórios formam novos habitats para pássaros e outras espécies.

A hidrelétrica oferece uma boa ilustração da importância da seleção do local e do design do projeto. Alguns projetos podem ser economicamente viáveis, mas, em última análise, não devem ser realizados se a for considerada a degradação ambiental que podem causar. Para outros projetos, os impactos podem ser limitados por estratégias de mitigação, que cooperem com o fluxo de córrego e a migração de peixes.

Lições semelhantes são válidas para a energia eólica, onde a destruição do habitat durante a construção deve ser minimizada e as operações ajustadas para reduzir colisões com aves de rapina e morcegos. Além disso, os recursos de energia eólica variam amplamente, o que argumenta para a escolha de locais onde ventos são mais abundantes.

A bioenergia ameaça a biodiversidade

A energia de biomassa desempenha um papel fundamental na maioria dos planos para limitar o aquecimento global. Ao contrário da energia solar fotovoltaica e da eólica, ele fornece energia renovável de acordo com a demanda.

Quando combinado com a captura e armazenamento de CO2, ele pode purificar o carbono da atmosfera e depositá-lo no subsolo. A queima de talhadias, como salgueiros e gramíneas, para produzir energia também pode ajudar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Desta forma, os efeitos sobre a saúde da queima de biomassa podem ser reduzidos.

No entanto, o uso da terra necessário para o desenvolvimento destas plantas de rápido crescimento se equivale ao uso da terra por outras fontes de energia. O que tem implicações ecológicas significativas. Um dado que foi medido por espécies perdidas por quilowatt-hora gerado, o que torna os danos ecológicos da energia de biomassa comparáveis ​​aos de carvão e de gás.

Assim, embora ofereça benefícios quanto a redução de emissões de gases de efeito estufa, a energia de biomassa se torna mais favorável aos ecossistemas somente quando gerada através de captura e armazenamento de carbono.

As estratégias de mitigação climáticas podem proporcionar uma rara oportunidade de reduzir não só as emissões de carbono, mas também uma ampla gama de problemas ambientais. No entanto, a implantação de tecnologias com baixo teor de carbono deve evitar habitats sensíveis, a fim de realizar plenamente seus benefícios ambientais sem desencadear consequências não intencionais.

Embora a maioria das pessoas reconheça que a energia solar e eólica são fontes com baixa emissão de carbono, a bioenergia e a captura e armazenamento de carbono também têm um papel indispensável em basicamente todos os cenários em que os países reduzem rapidamente as emissões de carbono. Os resultados indicam que precisamos procurar maneiras de usar essas tecnologias, minimizando os danos aos ecossistemas. Não se trata apenas de saber empregar meios de energia limpos, mas quais são as melhores tecnologias, onde é preferível que elas se instalem e como usa-las apropriadamente.

Originalmente publicado em The Conversation

Você pode gostar também Mais do autor

Comentários

Carregando...