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Geóloga estuda vulcão que está em erupção contínua há séculos

Lava do vulcão Nyiragongo.

Originalmente publicado em Phys por Richard Lewis

 

Por duas semanas, Ingrid Ukstins viveu em um ambiente selvagem e perigoso. A vulcanologista da Universidade de Iowa passou os seus dias coletando amostras de um vulcão em Tanna, uma ilha no remoto arquipélago Vanuatu, no sul do oceano Pacífico. O vulcão, chamado Yasur, cospe massas flamejantes ou “bombas” – algumas do tamanho de um carro pequeno.

Então Ukstins treinou os seus olhos na cratera de Yasur, que fica a quase meio quilometro a cima do nível do mar, para esperar pedras derretidas serem ejetadas – e “tentar não ser acertada na cabeça por nenhuma,” ela acrescenta.

“Eu esperava por uma grande explosão e observava um dos fragmentos de rocha cair em algum lugar,” diz Ukstins, professora associada do UI Department of Earth and Environmental Sciences (Departamento de Geociências e Meio Ambiente da Universidade de Iowa). “Quando você encontra o buraco onde a rocha caiu, você consegue perceber que ela acabou de sair do vulcão.”

Ukstins viajou para Yasur por este vulcão ser um laboratório vivo: o vulcão vem tendo erupções continuamente desde pelo menos 1774, quando foi observado pela primeira vez pelo explorador britânico Capitão James Cook. Novas pesquisas têm mostrado que ele vem ejetando material sem uma grande pausa por mais de 1,400 anos – possivelmente até 20,000 anos.

“É o mais perto que você pode chegar de um registro contínuo,” Ukstins disse.

O que Ukstins pretender aprender é se a concentração de gases tóxicos, como dióxido de enxofre e flúor, é diferente entre os contidos no líquido dentro do vulcão e no material ejetado. Ela também deseja estudar a atividade da câmara de magma, o concentrado espumante de lava dentro do cone do vulcão, para aprender mais sobre como as erupções se modificam em horas ou dias.

“Se conseguirmos entender como Yasur funciona, nós podemos entender melhor como outros vulcões funcionam,” ela disse.

Ukstins já estudou vulcões no Chile, China, Groenlândia, Havaí e Islândia, entre outros. Apesar de ter conseguido conhecimentos valiosos de cada um, ela estava especialmente interessada em estudar um vulcão ativo.

Ela soube de um grupo de pesquisa da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), conduzido pelo professor e expert em vulcões Shane Cronin, que, desde 1999, tem estudado os efeitos dos gases de Yasur nas pessoas em seus arredores

“Eu fui muito sortuda de ir junto, cientificamente falando, “ disse Ukstins. Ela dormiu em um bangalô com redes ao redor da cama. “Aquilo era a selva,” ela conta. “Havia aranhas tão grandes quanto bolas de tênis.”

No campo, Ukstins observava as erupções e localizava os detritos caídos. O material vinha em todas as formas, tamanhos e estados: alguns pedaços eram enormes e pretos como carvão por fora, um resultado do exterior vermelho e quente solidificando durante o breve voo do material. Outros pedaços eram parcialmente líquidos, como balões d’água flamejantes que se espatifavam ao aterrissar. Ukstins carregava um martelo e cortava amostras dos pedaços maiores e mais sólidos, tomando cuidado para não queimar suas mãos enquanto juntava seu inventário.

As amostras que ela coletou estão agora na Universidade de Iowa. Começando no final de julho, Ukstins e sua equipe irão analisá-las para determinar suas propriedades químicas e sua composição elementar e mineral, usando dois instrumentos poderosos – uma microssonda de elétrons e um espectrômetro de massa acoplado indutivamente.

“Nós temos um registro de três meses de atividades vulcânicas, tanto de monitoramento, quanto de amostras retiradas das bombas assim que eram expelidas pela erupção,” ela disse, “então temos uma oportunidade única de vincular as observações de atividades explosivas e fluídos gasosos com qualquer mudanças que possamos ver nas amostras.”

Ukstins ficou especialmente impressionada pelos efeitos do vulcão Yasur nas pessoas que moram nas proximidades, pois muitas das quais mostram sintomas físicos, desde dentes amarelados até ossos quebradiços. Os pesquisadores de Auckland suspeitam que as doenças físicas sejam resultantes da exposição prolongada ao flúor que as pessoas respiram e ingerem em plantas que absorvem e armazenam o gás. Ukstins ajudou os seus colegas de Auckland a obter amostras das plantas e do solo ao redor do vulcão, que serão analisadas para medir a sua concentração de flúor e outros subprodutos vulcânicos potencialmente nocivos.

“Isto tem implicações reais para a saúde,” disse Ukstins. “Significa mais do que simplesmente estudar vulcões.”

 

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