Há mesmo evidências físicas para a reencarnação?

Créditos: Eli Hewitt | Flickr
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Há seis dias, uma página do Facebook, publicou um artigo que listava 10 evidências físicas para a reencarnação. Hoje, um outro canal de notícias postou o mesmo artigo (com algumas adaptações que, para a saúde dos leitores, não deveriam ser feitas) com o título 10 supostas provas de que a reencarnação existePelo menos, a última teve a decência de colocar o termo supostas.

Vou me focar apenas no que foi publicado pela página do Facebook, já que, provavelmente, você, leitor, a conhece. Ao ver o título, hesitei em ler tudo. Mas, com muita coragem, continuei e, logo no primeiro parágrafo, fui colocado novamente para baixo. O autor do texto teve a audácia de confundir “hipótese” com “teoria”. Eu não quero adentrar muito no campo, então, darei uma explicação básica e breve:

Hipótese: deve ser capaz de produzir inferências (raciocínio concluído ou desenvolvido a partir de indícios) do qual possam ser testadas (direta ou indiretamente);

Teoria: postulado já verificado e com evidências que sustentem-no.

Podemos perceber, ainda, ao decorrer do texto, que vários nomes de cientistas são citados como forma de apelar ao título que eles possuem visando a confirmação da hipótese. Só para constar: o fato de alguém ter se formado em uma universidade não significa que tudo o que ele falar é verdade. Um bom exemplo disso é um certo doutor em química defensor de pseudociências. Não importa se é mestre, doutor ou pós-doutor, se não apresentar evidências para suposições que eles dizem que seriam científicas, não há nenhuma credibilidade no discurso.

Vemos, também, que há a citação de um suposto jornal científico, o The Journal of Scientific Exploration. Mas, ao observarmos a definição feita pela Hypescience, já temos a certeza de que ele não tem crédito algum. Veja:

[pullquote]um jornal revisto por pares destinado ao estudo de áreas misteriosas da ciência, desde a medicina alternativa até extraterrestres[/pullquote]

Medicina alternativa não é ciência, pois já foi invalidada e resumida em um simples termo: NÃO FUNCIONA! Se funcionasse, se chamaria medicina

O “estudo de extraterrestres” apenas aparece na Astrobiologia, mas a matéria não tem a menor certeza se existem. Quando falamos do estudo de OVNIs e de supostas aparições desses supostos seres, estamos falando da Ufologia. Essa que também não é uma ciência.

Enfim, vamos lá para o texto em si:

Primeira “evidência”: Marcas de nascença

Climatologia GeográficaBasta uma leve pesquisa no Google para descobrir que essas marcas se originam por defeitos em vasos sanguíneos, melanócitos, nos tecidos adiposo e musculoso, nos fibroblastos e nos queratinócitos. Nada relacionado à reencarnação.

Cita-se, ademais, um garoto chamado K.H. (???) – mais um motivo para duvidar, já que não há motivos para esconder o nome dele -, que nasceu com uma marca no mesmo local que o seu avô. Ótimo! Mas isso pode ser apenas uma coincidência. E se não for? Então, deveríamos observar mais pessoas ao redor do mundo que passaram pela mesma situação e ver se há alguma correlação entre elas.

O fato do garoto ter chamado a mãe de War War Khine talvez seja apenas uma ilusão. O garoto falou algo, como uma criança normal, e ela automaticamente associou ao apelido, provavelmente pelo fato de sentir saudades do pai e sentir a necessidade de relacionar qualquer coisa que seja a ele. O mesmo caso para o sonho. Um sonho é apenas fruto de um movimento rápido dos olhos enquanto dormimos, o que não tem nada a ver com situações da realidade.

Segunda “evidência”: A criança que nasceu com ferimentos de bala

Climatologia GeográficaMeu Deus! O próprio texto se desmente. Veja o que foi dito:

O garoto em questão nasceu com microtia unilateral – má formação da orelha – e microsomia hemifacial, que é o subdesenvolvimento do lado direito de seu rosto. A microtia ocorre em cerca de 1 em cada 6.000 bebês, enquanto a microsomia é estimada em 1 a cada 3.500 bebês.

Terceira “evidência”:  A paciente que matou e se casou com o próprio filho (?????)

Climatologia GeográficaO trecho fala de uma história (provavelmente inventada) de uma mulher que teve uma “regressão”, onde foi materializada em uma americana colonizadora que sufocou o filho com uma suposta marca de lua crescente no ombro. Logo após, a mulher se casou com uma pessoa que tinha uma marca de lua crescente no mesmo ombro.

A primeira coisa que deveríamos analisar é a veracidade da história. Supondo que ela seja real, deveríamos visitar o tal casal relatado. Mesmo assim, a única explicação viável seria a de coincidência mesclada com pareidolia.

Só lembrando: papel aceita qualquer coisa de qualquer pessoa. Então, só porque eu escrevi algo em um livro e publiquei, não significa que o que tenha escrito seja real, mesmo que tenha sido escrito por algum meste, doutor ou pós-doutor (o que nos leva de volta ao argumento de apelo á autoridade citado anteriormente).

Quarta “evidência”: Caligrafia

Climatologia Geográfica

É clamado que um menino de 6 anos chamado Taranjit Singh relatou que havia nascido em um vilarejo a 60 km de onde ele mora, estudava o nono ano e tinha morrido em um acidente de bicicleta. Eu poderia dar algo bem detalhado como fiz e farei, mas, para ser bem breve, quero dizer que não há evidências de nada disso! São apenas relatos, anedóticas, não servem como evidência.

Quinta “evidência”: Monastérios

Climatologia GeográficaO trecho fala de um suposto garoto chamado Robin, que falava em uma língua completamente diferente da sua (reconhecido assim por um professor desconhecido) e disse que aprendeu-a em um monastério.

Então, sem nenhuma descrição explicitada de como era o lugar, um professor foi simplesmente para um monastério das Montanhas Kunlun e, automaticamente, disse que o garoto tinha sido a reencarnação de alguém de lá, sem nenhuma evidência disso.

Tudo isso foi descrito em um livro, o que nos leva ao argumento citado na “Terceira ‘evidência'”, de que papel aceita qualquer coisa de qualquer pessoa.

Sexta “evidência”: Sueco

Climatologia GeográficaHá uma história que relata a história de uma mulher que, do nada, começou a falar “sueco”. É um fenômeno chamado de xenoglossia.

É praticamente impossível de comprovar isso! Primeiro, nenhum nome é citado. Segundo, é apenas um relato, e tem a mesma verossimilhança, por enquanto, de uma lenda. Seria o mesmo que dizer que, enquanto eu escrevo esse texto, o saci apareceu atrás de mim com um copo de vodca na mão, falando em russo e dizendo que já aprontou com o meu ente da vida passada.

É algo tão interessante, né? Por isso é tão credível. As pessoas tendem a acreditar no que é maravilhoso, curioso e impossível, sem analisar criticamente nada. Quase a mesma conclusão feita na “quarta ‘evidência'”.

Sétima “evidência”: Soldado japonês

Climatologia GeográficaConta a história de uma menina, chamada Ma Win Tar, que começou a agir como um soldado japonês. Novamente, não há evidências de nada! Os crentes sequer analisaram a possibilidade dela estar inventando o que falava!

Oitava “evidência”: Cicatrizes Fraternais

Climatologia GeográficaRelaciona-se à história de Kevin Christenson, um homem que teria morrido em 1979 e que tem elevadas chances de NUNCA TER EXISTIDO! Ao pesquisar pelo nome do indivíduo, apenas achamos outras pessoas ou links direcionados para, adivinhe, “10 evidências para a reencarnação”.

Nona “evidência”: Memória Felina

Climatologia GeográficaEu desisti de tentar refutar detalhadamente cada ponto há muito tempo. Então, comecei a pesquisar os nomes do pessoal citado.

Novamente, essa “evidência” fala da história de um homem chamado John McConnell e blablabla. Ao pesquisar pelo nome dele, apenas chegamos à mesma conclusão do tópico anterior, exceto pelo fato de que ele é encontrado em mais outros sites.

Décima “evidência”: O entre-estados

Climatologia Geográfica

Uma história que fala sobre uma paciente que “em uma sessão de regressão” começou a falar do pai e do filho do Dr. Weiss. Supondo, novamente, que essa história não seja inventada e que realmente haja evidências de que essa mulher (chamada Catherine) existiu, ela falou:

[pullquote]Seu pai está aqui, e seu filho, que é uma pequena criança. Seu pai diz que você vai saber quem ele é pelo nome Avrom, que você deu a sua filha. Além disso, ele morreu por seu coração. O coração do seu filho também era importante, por batia ao contrário, como o de uma galinha. Ele queria lhe mostrar que a Medicina só chega até um certo ponto, que seu alcance é muito limitado.[/pullquote]

O trecho consistiu em uma adaptação do realmente dito, por conta de erros ortográficos

Toda essa fala pode ser identificada, apesar dos nomes citados, por um simples discurso proferido por aqueles que clamam ter poderes sobrenaturais e que dizem revelar coisas sobre a vida do paciente. Como não sabemos toda a conversa e o que antecedeu a parte descrita, não podemos concluir nada. Mas, se soubéssemos os antecedentes, talvez, haveria uma imensa possibilidade de ter havido leitura fria.

Resumindo:

Nada, NADANADANADA do que foi falado é uma evidência para a reencarnação. Muito do que foi dito baseia-se apenas em relatos, em evidências anedóticas, tão verossímeis quanto a história do saci (como descrevi).

Se quiser crer em algo, creia! É seu direito! Mas isso não é algo para ser verificado fisicamente e nem para ter ciência envolvido no meio, caso contrário, mais textos como esse virão.

O texto, apesar de ter sido escrito por mim, teve o apoio do fundador do Universo Racionalista, Douglas Rodrigues.

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