Língua islandesa em risco: computadores não conseguem entendê-la

In this photo taken Saturday, April 15, 2017, Salome Sigurjonsdottir, 10, tests a voice-controlled television in an electronics store in Reykjavik. Sales assistant Einar Dadi said none of his TVs understood Icelandic. The revered Icelandic language, seen by many as a source of identity and pride, is being undermined by the widespread use of English both for mass tourism and in the voice-controlled artificial intelligence devices coming into vogue. (AP Photo/Egill Bjarnason)
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Quando um cidadão da Islândia chega a um escritório e vê a palavra “solarfri”, ele não precisa de mais nada para explicar por que o lugar esta vazio: a palavra significa “quando os funcionários ganham uma tarde de folga inesperada para aproveitar o clima bom”.

Os povos desta ilha acidentada do Atlântico Norte, estabelecidos por homens nórdicos à 1.100 anos, possuem um dialeto de antigas línguas nórdicas adaptadas para a vida na beira do Ártico.

“Hundslappadrifa”, por exemplo, significa “nevasca pesada com grandes flocos de neve, ocorrendo em vento calmo”.

Mas a língua islandesa reverenciada, vista por muitos como uma fonte de identidade e orgulho, está sendo exterminado pela difusão da língua inglesa, tanto por causa do turismo em massa, como também pelos dispositivos de inteligência artificial controlados por voz que estão entrando em voga.

Especialistas em linguística, estudando o futuro de uma língua falada por menos de 400.000 pessoas em um mundo cada vez mais globalizado, se perguntam se este não seria o começo do fim da linguagem islandesa.

A ex-presidente Vigdis Finnbogadottir disse ao The Associated Press que a Islândia deve tomar algumas atitudes para proteger a sua linguagem. Ela esta particularmente envolvida no desenvolvimento de programas que facilitem o uso da língua em tecnologias digitais.

“Caso contrário, a língua islandesa irá ter o mesmo fim que o latim,” ela avisou.

Professores já estão sentindo uma mudança entre os estudantes no âmbito de seus vocabulários, leituras e compreensões quanto à língua islandesa.

Anna Jonsdottir, uma consultora de ensino, disse que ela frequentemente escuta os jovens falando inglês entre eles quando ela visita escolas na capital da Islândia, Reykjavik.

Ela disse que estudantes de 15 anos de idade não recebem mais como tarefas um volume da Saga dos Islandeses, a literatura medieval que conta a história dos primeiros colonizadores da Islândia em forma de crônica. Os islandeses já não se orgulham de serem capazes de ler com fluência os contos épicos originalmente escritos em pele de bezerro.

Muitas escolas de ensino médio também estão esperando até o último ano para dar como conteúdo a leitura das obras de Halldor Laxness, o ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1955, que descansa em um pequeno cemitério perto de sua fazenda no oeste da Islândia.

Numerosos fatores se combinam e fazem do futuro da linguagem islandesa incerto. O turismo explodiu em anos recentes, se tornando o maior empregador do país, e analistas do Banco Arion disseram que um a cada dois novos empregos está sendo preenchido por trabalho estrangeiro.

Isso aumenta o uso do inglês como um comunicador universal e diminui o papel da língua islandesa, segundo especialistas.

“Quanto menos útil a língua islandesa se tornar no dia a dia das pessoas, mais perto nós, como uma nação, ficamos de desistir de usá-la,” disse Eirikur Rognvaldsson, um professor de linguagem na Universidade da Islândia.

Ele embarcou em um estudo de três anos com 5.000 pessoas, que será o maior inquérito já feito sobre o uso de uma linguagem.

“Estudos preliminares sugerem que crianças ao longo de sua primeira aquisição linguística não são expostas o suficiente à língua islandesa para criar uma base forte,” ele disse.

As preocupações quanto a língua islandesa não são novas. No século 19, quando o seu vocabulário e sintaxe eram muito influenciados pelo dinamarquês, movimentos independentes lutaram para reviver a língua islandesa como a linguagem comum, usando como afirmação central que os islandeses eram uma nação.

Desde que a Islândia se tornou independente da Dinamarca em 1944, os seus presidentes têm defendido ferozmente a necessidade de proteger a linguagem.

Asgeir Jonsson, um professor de economia da Universidade da Islândia, disse que sem uma linguagem própria a Islândia poderia passar por uma drenagem cerebral, particularmente entre certas profissões.

“Uma cidade britânica com uma população do tamanho da Islândia têm muito menos cientistas e artistas, por exemplo,” ele disse. “Eles simplesmente se mudaram para a metrópole.”

O problema se agravou por que muitos dispositivos computadorizados novos são projetados para reconhecer a língua inglesa, mas não entendem a islandesa.

“Não poder falar em islandês para geladeiras ativadas por voz, robôs interativos e dispositivos similares seria outro campo perdido,” disse Jonsson.

O islandês se encontra entra as mais fracas e menos apoiadas línguas em termos de tecnologia digital – junto com gaélico irlandês, letão, maltês e lituano – de acordo com uma reportagem pelo Multilingual Europe Technology Alliance avaliando 30 linguagens europeias.

O ministro da educação da Islândia estima que 1 bilhão de coroas islandesas, ou $8,8 milhões de dólares, seriam necessárias para o financiamento de um banco de dados de acesso livre para ajudar desenvolvedores de tecnologia a adaptar o Islandês como uma opção de idioma.

Svandis Svavarsdottir, um membro do parlamento islandês do Movimento de Esquerda Verde, disse que o governo não deveria medir custos quando a herança cultural da nação está em risco.

“Se esperarmos, talvez seja tarde demais,” ele disse.

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