Nós possuimos uma alma?

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Por Robert Lawrence Kuhn | LiveScience

A maioria das religiões afirmam que existe mais do que apenas o cérebro agindo sobre você. O entendimento tradicional é de que a senciência humana e a individualidade são transmitidas por meio de algum tipo de substância não-física, muitas vezes chamada de ‘alma’.

Embora a alma não seja considerada por muitos filósofos contemporâneos, alguns estudiosos ilustres defendem a ideia de que o “eu” é fundamentado sobre a alma, e se estende para além do físico, podendo sobreviver após a morte do corpo. Mesmo assim, esses estudiosos divergem no conceito, com alguns dizendo que a alma é crucial para a identidade pessoal, embora talvez não possa ser separada do corpo físico. Outros, entretanto, acreditam que a alma é um “padrão de informação de suporte”, que liga a pessoa que está viva com aquela ‘pós-vida’, que vive para sempre. E ainda, outros estudiosos sugeerm que a alma, por assim dizer, é uma espécie de unidade existencial de fases sucessivas do cérebro ao longo da vida de uma pessoa.

A essência da alma

O filósofo da religião Richard Swinburne, conceituado em Harvard, defende a alma com sofisticação e vigor.

“Se você quiser contar toda a história do mundo, é preciso dizer quais objetos existem no mundo, quais substâncias existem, e quais propriedades eles têm em diferentes momentos”, disse Swinburne em “Closer to Truth”. “Claro, isso, incluirá todos os objetos físicos, todas as mesas, cadeiras, planetas e átomos. Mas, certamente, isso não contará toda a história. Você terá que contar a história da vida consciente, que está a associada a cada corpo”.

Swinburne afirma que, a fim de contar “a história completa do mundo”, é preciso “escolher temas de experiência”, não apenas pelas experiências que eles têm, não apenas pelos corpos físicos com os quais eles estão associados”, mas também com “entidades mentais separadas, cuja palavra natural é ‘alma… Se você não trouxar a alma à tona, você não contará a história completa do mundo, porque você não explicará quem tem qual vida consciente”.

“Se as únicas coisas são objetos físicos, incluindo corpos e cérebros, não seriamos capazes de distinguir um caso onde você tem o corpo que atualmente é seu, e eu tenho o corpo que atualmente é meu, do caso onde você tem um corpo que atualmente é meu, e eu tenho m corpo que é atualmente seu”, complementa Swinburne.

“Se propriedades físicas e mentais fossem apenas propriedades dos corpos, não haveria diferença entre esses casos”. Mas como existem diferenças essenciais entre “eu” e “você’, Swinburne afirma que “deve haver outra parte essencial em mim que vai onde quer que eu vá, e é isso que chamamos de ‘alma’.

Swinburne sublimou que seu argumento para a existência da alma não depende de revelações teológicas ou de suas crenças religiosas.

Quanto à relação entre corpo e alma, Swinburne é ambivalente. “Talvez, de fato, uma alma não possa agir sozinha. Talvez só possa funcionar se estiver associada a um corpo. Nesse caso, minha existência contínua poderá consistir em ser ligado a outro corpo – talvez um corpo completamente novo”. Eu acho que a alma pode existir por conta própria, mas essa não é uma boa ideia”, diz. Para Swinburne, um corpo é importante para que “possamos interagir com os outros, reconhecer os outros”, já que precisas de características diferentes.

“A diferença entre as almas não é analisável. Uma alma não possui extensão. No entanto, possui características, propriedades. Ela possui pensamentos, sensações, atitudes. Mas a forma com que nós distinguimos na prática as almas, é em termo de corpos com que estão associadas. Porque a a diferença entre a sua alma e a minha alma não consiste nas suas relações com nossos respectivos corpos. Não há, no entanto, nada paradoxo sobre a diferença entre almas não poder ser analisada. Se você analisar ‘a’ por ‘b’, ‘b’ por ‘c’ e por aí em diante, você eventualmente chegará em coisas que não pode analisar. E as diferenças entre almas humanas, no meu ponto de vista, é uma dessas coisas”, explica.

A alma depois da vida

O físico e padre anglicano John Polkinghorne chega a uma conclusão religiosa semelhante para o significado e propósito do “eu”, mas ele chega a ela através de uma formulação que envolve suas crenças religiosas. Ele concorda com os cientistas que padrões de informações carregam nossa existência, mas quanto ao que se segue, ele diverge completamente.

Polkinghorne começa perguntando: “Você pode fazer um entendimento crível para o destino dos seres humanos após a morte?”. Então, a partir de sua perspectiva teológica cristã, ele estabelece dois requisitos iguais e opostos para a vida da alma após a morte: a continuidade, em que a mesma pessoa (o mesmo eu) deve viver após a morte; e a descontinuidade, em que a pessoa pós-vida “o eu após a morte”, deve viver para sempre.

O padre então questiona como você pode ter continuidade e descontinuidade da mesma pessoa. “A resposta tradicional tem sido a alma, muitas vezes entendida em termos platônicos – há algum tipo de parte espiritual em nós que é liberada na morte que existe e continua”.

Citando as escrituras hebraicas e o Novo Testamento, Polkinghorne diz: “Eu acho que existe um erro. Nós temos uma unidade psicossomática. Não somos “anjos aprendizes”; nós somos seres humanos encorporados. De fato, é difícil entender a continuidade nessa vida. Aqui estou eu, um acadêmico velho, careca – o que me faz a mesma pessoa que o pequeno garotinho com cabelo preto na fotografia da escola anos atrás? Não é a continuidade atômica, material – os átomos no meu corpo são totalmente diferentes dos átomos daquele garoto. Não são os átomos por si só, mas o padrão em que esses átomos estão organizados. E eu acho que isso é a alma. O padrão de informação de suporte, que me faz como sou”.

Mas na morte, então, esse padrão não terminaria junto com o corpo em que ela residia?

“Se eu acredito em Deus como eu acredito, Deus se lembra desses padrões e o reconstitui no ato da ressurreição. Mas isso não me mantém vivo (após a morte e antes da ressurreição). Então se eu mereço viver novamente, eu preciso ser reencorporado, porque é isso que eu sou como um ser humano. Esse é o lado contínuo das coisas. A descontinuidade é que eu não volto a vida para morrer novamente, então devo ser encorporado em algum novo tipo de matéria. E é perfeitamente coerente acreditar que Deus pode trazer á existência uma nova forma de matéria”, explica Polkinghorne.

Para Swinburne, a ideia da nossa existência pós-vida se dar em uma nova instância do padrão de informações que tivemos na Terra é problemática. “O problema não é meramente como poderia Deus, se Deus assim escolhesse trazer à existência um ser com um padrão específico de informações, mas sim que Deus poderia, portanto, trazer à existência alguns milhares de tais seres. Mas como só um deles tem que ser ‘eu’, um padrão de informação não oferece nenhum critério extra para distinguir qual padrão deverá ser. E qualquer que seja esse critério, ele teria que existir de uma forma onde só pudesse haver uma instância dele ao mesmo tempo. E se tivéssemos esse critério, então qual seria a necessidade de um padrão de informação ser o mesmo de um padrão anterior?”, questiona.

Unidade existencial

O filósofo John Leslie, professor emérito da Universidade de Guelph, no Canadá, afirma que a individualidade pode exigir uma espécie de “unidade existencial”, um estado, como encontradas em totalidades cujas partes são incapazes de existir separadamente”. Em outras palavras, eles não poderiam se separar um do outro sem alterar suas naturezas intrínsecas.

Leslie compara esta unidade existencial à experiência holística consciente de uma pintura ou notas musicais que ouvimos em conjunto.

Ainda que “existencial”, essa unidade do “eu” é real; ela “pode depender do fato de determinados estados de um cérebro, e também os estados sucessivos do cérebro e suas ligações ao longo da vida, possuírem esta unidade existencial”. Ele diferencia “unidade existencial” de “mera unidade de integração, como a unidade das peças de uma máquina ou de um exército bem disciplinado”.

Como poderia tal unidade existencial ser alcançada? O cérebro pode ser um tipo de computador quântico. “Totalidades quânticas são aquelas cujas partes não existem separadamente”, disse Leslie. “E no cérebro, há uma unidade de existência, como é tida por computadores quânticos, mas não por computadores digitais”, explicou. Mesmo assim, ele acrescenta: “O cérebro como um computador quântico não é essencial para a minha posição, e algo além da unidade quântica pode estar envolvida”.

Leslie traça uma analogia com uma compreensão histórica das almas. “Quando as partes de uma alma eram vistas existencialmente unificadas a cada instante particular, não pensava-se que Deus, quando fabricava almas unificadas, precisava realizar algum tipo de mistura especial, envolvendo várias etapas. Acreditava-se que simplesmente que as almas tinham, desde o momento de sua criação por Deus, a propriedade de ser complexa, ainda que existencialmente unificada. Muitos elementos distintos de tal complexidade estavam presentes quando uma alma tinha um pensamento ou uma experiência, mas ainda assim, uma alma permanecia existencialmente unificada a cada instante, e permanecia a mesma alma em instantes sucessivos”.

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