Os mandamentos do divulgador científico e as dificuldades de ser um no Brasil

Foto de Marcelo Gleiser, grande divulgador científico brasileiro.
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Foto de Marcelo Gleiser, grande divulgador científico brasileiro.
Foto de Marcelo Gleiser, grande divulgador científico brasileiro.

O texto a seguir foi elaborado pelo fundador da página da Climatologia Geográfica (biografia abaixo) em parceria com Douglas Rodrigues, dono e fundador da página Universo Racionalista, e com Josikwylkson Costa Brito (editor e tradutor das duas páginas). A base para tal é o reflexo da experiência que os três tiveram com a divulgação científica amadora no Brasil através das organizações citadas.

[1] O divulgador científico deve traduzir, interpretar e transcrever artigos para alcançar uma linguagem acessível. 

[2] O divulgador científico deve admitir um erro de um artigo e corrigi-lo, buscar fontes e se retratar.  Ele é um alvo frequente de correções. Várias vezes, erros leves ou gravíssimos são cometidos – inclusive, na própria Climatologia Geográfica. No entanto, deve-se possuir racionalidade o suficiente para admitir que houve um equívoco, permitindo, assim, que esse seja consertado. A desonestidade intelectual, apesar de reinar em nossa sociedade, é inaceitável, contraproducente e injustificável para um divulgador, já que a ciência trabalha de forma oposta a isso.

[3] O divulgador deve pensar na disseminação do conhecimento da forma mais rápida e clara possível.

[4] O divulgador não deve visar somente “buscar likes“. Em certos momentos, pode ser até que isso tenha alguma lógica – quanto mais alcance, mais pessoas a ciência atingirá -, porém, o indivíduo que faz o trabalho apenas com o objetivo de se tornar famoso e ganhar curtidas está fadado ao fracasso.

[5] O divulgador científico deve debater pacientemente, utilizando a Lógica como retificadora de argumentos e sendo imparcial caso o tema debatido envolva puramente a ciência. O divulgador vai, em algum tempo, se tornar conhecido, mesmo que de forma temporária. Daí, surgem os debates. Embora muitos sejam saudáveis, outros discursos lançados são repletos de sofismas, inconsistências e ódio. Exemplos disso são as famosas frases de que “o autor/tradutor do texto não tem autoridade o suficiente para falar de determinado assunto” e “o autor/tradutor do texto é inexperiente e novo de mais; portanto, não sabe de nada sobre tal conteúdo”. Obviamente, as frases citadas, aqui, são eufêmicas, por requerimento de decoro; no entanto, não é exagero dizer que, geralmente, as sentenças vêm com algum xingamento pessoal ou alguma ofensa do tipo. [6] Para tais, o divulgador científico deve apenas responder com a rígida frieza do silêncio. Alguns outros comentários, por sua vez, são irônicos e refletem uma desonestidade intelectual por parte daquele que comenta – tanto pelo fato de que há uma recusa de admitir o próprio erro quanto porque há tentativas de desmoralização, sem objetivo algum de obter um debate saudável. [7] Para esses, o divulgador científico deve dar o mesmo tratamento anterior.

[8] O divulgador científico deve denunciar as pseudociências (como homeopatia, psicanálise, astrologia, etc.), mesmo que elas, até então, não tragam consequências nefastas e mesmo que isso vá contra as crenças do próprio divulgador. Isso deve vir com o objetivo de credibilizar a ciência. Geralmente, quando artigos do tipo são escritos, muitas pessoas lançam-se a argumentar irracionalmente. As tentativas de denegações mais proferidas são: (I) tentar promover uma experiência pessoal (“funcionou comigo/com meu primo/com meu tio/ com meu irmão/etc.”) ao nível de uma evidência científica; (II) invocar o senso comum ou; (III) afirmar que, só pelo fato de algum procedimento ser velho e ter sido negado por muitos anos, ele , automaticamente, deve possuir  confiabilidade quanto ao funcionamento. Detalhadamente, as contraposições a cada tópico:

(I) Não foram feitos estudos controlados com essas pessoas para dizer que a opinião delas vale alguma coisa que chegue a ponto de contrariar um curso ou um estudo científico. (anedotas – relatos /opiniões – não tem valor em ciência, pois não são verificáveis).

(II) Quanto ao apelo ao senso comum, há uma frase do famoso autor Anatole France que resume tudo: “Se 5 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa continua sendo estúpida”.

Assim, mesmo que 90% das pessoas do mundo acreditem em algo, não significa que elas estão certas. Isso constitui a falácia de apelo à maioria (Ad populum).

(III) Quando alguém defende que, uma terapia ou cura espiritual,  só por ter sobrevivido por mais de mil ou 4 mil anos, isso automaticamente faz dela verídica e funcional, é um caso clássico da falácia de apelo à tradição (Argumentum ad antiquitatem), e não quer dizer absolutamente nada.

Entretanto, caso as ideias sejam consistentes, possuindo algum nível razoável de refutação, [9] O divulgador científico deve dá-las atenção, colocando-as em pauta ou fomentando argumentos que as contradigam, com a finalidade de construir uma melhor argumentação para um próximo debate.

[10] O divulgador científico deve reconhecer que nem ele, nem o cientista e nem a ciência são donos da verdade. Assim, tem, como postura, ser cético e não adotar o conhecimento científico como um dogma. O trabalho deve mostrar para onde apontam as evidências. O divulgador científico deve ser ciente de que o conhecimento científico é falível – isto é, enquanto não for refutado pela experiência. No entanto, tal pensamento não deve ser exagerado. A ciência é falível, não fictícia. A ciência deve ser movida pelo ceticismo, não pelo niilismo. Não é saudável achar que o conhecimento científico atual deva estar, automaticamente, errado em sua totalidade só porque alguns postulados anteriores já estiveram. A indução meta-pessimista é algo que deve ficar longe de um divulgador. Ademais, a ciência muda (sim!); às vezes, de uma maneira revolucionária, mas, nunca de uma forma total!

 


As dificuldades de um divulgador da ciência

Climatologia GeográficaVocê, leitor, já deve ter sentido, na pele, quais são as dificuldades que enfrentamos. Passamos por essas situações diariamente, seja em um post sobre Homeopatia, Psicanálise, Homossexualidade, Teoria da Evolução, Teoria da Gravidade, Teoria do Big Bang, e em centenas de estudos postados que provam, de alguma maneira, que boa parte do senso comum sobre alguma coisa está errada. Pessoas cegas intelectualmente insistem em impor algo que não tem fundamentos e, nós somos obrigados a aceitar isso. Outras partem para o ataque pessoal, hostilizando-nos como se houvesse algum prêmio para o xingamento mais absurdo, apenas por ferirmos a ignorância delas. E não é apenas conosco! Youtubers, como Pirula, também sofrem com o mesmo problema. A gota d’água foi nesta postagem no Facebook <– (É importante que você veja e retorne a este texto). O nível dos comentários insatisfeitos com a notícia foi um dos motivos de nos ter feito escrever essa nota de indignação. Só para que se tenha uma ideia da inescrupulosidade de alguns comentários:

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Tais comentários estão ocultos da página, mas, a partir deles, já se pode perceber a dimensão do que é ser divulgador em um país onde os princípios da educação estão em último lugar e o fundamentalismo impera. Foi postado um artigo genial, baseado em um vídeo de um biólogo bem conhecido, e houve tanta violência por grande parte das pessoas, que preferiram passar o ódio na frente do que a ciência diz, que ficamos estarrecidos. Quando argumentamos que estamos sendo imparciais e usando a luz do conhecimento científico, viramos esquerdistas, militantes “gayzistas”, “feminazis” e centenas de outros pseudônimos fúteis que eu poderia citar em 3 páginas.  E, só para constar, poderia até se afirmar alguma negatividade do movimento LGBT sem que se tenha que negar a ciência. No entanto, quando se vê a negação da naturalidade da homossexualidade, percebe-se que não há ódio contra o movimento, sim contra os indivíduos do movimento, o que faz com que os argumentos sejam, ainda mais, estúpidos. Engraçado mesmo é que os seres que tanto tentam desqualificar a ciência ou o trabalho de sua divulgação são os mesmos que usufruem de seus resultados.

Como divulgadores e extremos admiradores do Carl Sagan, nós, Douglas, Isaías e Josikwylkson, queríamos que ele ainda estivesse vivo para que ficasse feliz com a divulgação científica feita hoje em dia (não apenas por nós, mas por muitas pessoas de outros sites merecedores de um grande respeito). Entretanto, ao perceber os níveis de hostilização que os divulgadores andam sofrendo, acho que deveríamos pensar duas vezes antes de querê-lo de volta, pois, caso contrário, ele mesmo matar-se-ia.

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