Por que discutir?

24

Receba atualizações em tempo real diretamente no seu dispositivo, inscreva-se agora.

Muitas pessoas reclamam e aclamam que discutir a ciência e propor um critério de demarcação para tal (diferenciando-a da pseudociência) é inútil. Assim como dizem que discutir qualquer assunto é inútil, visto que “as opinião são muito divergentes, e nenhum convencerá o outro de estar certo”. Provavelmente, essa frase esteja parcialmente certa, em virtude do complexo de desonestidade intelectual que muitas pessoas têm. Tal complexo, talvez, tenha origens em uma sociedade ostracista, que venera apenas ao que lhe agrade (mesmo que os fatos sejam distorcidos para isso), fechando-se, muitas vezes, à verdade. Construiu-se um estigma de que quando um indivíduo coloca-se como errado (aceitando-se como ignorante), ele deve ser envergonhado. Assim, vários sujeitos recusam-se a assumir o próprio erro por medo de sofrerem repúdio por aqueles que nem se dão ao trabalho de debater (provavelmente, por pura ignorância) nem se dão ao trabalho de entender como funciona um debate. Obviamente, há os ignorantes que perpetuam prepotência ao se colocarem como defensores de suas teses (para esses, tenho uma caracterização particular: burros).

Tal circunstância é nociva tanto à ciência e à filosofia quanto ao próprio progresso intelectual da sociedade. Há uma arma com duas lâminas: ou recusa-se a debater, ou debate-se com desonestidade. No entanto, se analisarmos minunciosamente o equipamento, veremos que, em uma situação crítica, a segunda lâmina [debater-se com desonestidade] é bem menos amolada que a primeira [recusar-se a debater], portanto, dentre as duas, ela é a melhor para segurar. Irme Lakatos – embora não simpatize com muito do que ele fala – tem um raciocínio bem interessante quanto a isso: quando deixamos de discutir ciência, a pseudociência vem à tona (entretanto, não é a única forma da pseudociência proliferar-se), principalmente pelo fato de que as pessoas tomam a ciência como algo valioso (e é incrível a contradição que fazem por não querer estudá-la) e qualquer coisa que seja falado em seu nome, muitas vezes, é creditado. Ou seja, quando paramos para pensar no conhecimento científico e em sua construção e em dialogar sobre isso com as pessoas, acabamos nos ossificando quanto ao que adotamos. Acabamos, também, hostilizando qualquer debate e qualquer sinal de dúvida a algo, o que nos faz sucumbir a conhecimentos de baixo valor sem provê-los o ceticismo necessário. Em última instância, a conjuntura acaba tornando-se mais nefasta, desabando no relativismo, e, na pior das vezes, na relativização da razão em geral [Martin Heidegger].

Não consigo ver nenhuma situação que a relativização da razão seja saudável, até porque ela é irracional. Sim, é irracional! Usar da razão para relativizar a razão é contraproducente, visto que estaria relativizando à própria frase e, assim, colocando-a como paradoxal, admitindo que, na verdade, a razão não é relativa. E, se é irracional, é evidente que esse não é um raciocínio razoável, visto que condena a verdade. É por isso que muitos o colocam como pseudofilosofia.

A partir do momento em que se relativiza o conhecimento, aqueles sistematicamente e metodologicamente construídos e que buscam fielmente o entendimento do mundo e a verdade são igualados ao conhecimento escapista, mercenário, utilitário e irracional. Tudo piora quando vemos que o segundo tipo de conhecimento tem caráter demagogo e é mais fácil de entender, assim, alguns leigos acabam seguindo por seu caminho, já que é o caminho mais fácil. Muitas vezes, acabam virando uma massa para movimentos anti-filosóficos e anti-científicos (vide anti-transgenia, até porque é mais fácil negar do que entender a genética).

Então, isso leva a outra colocação: fomentação de teorias da conspiração. Adota-se uma não neutralidade da ciência e uma construção de seus postulados a partir do contexto histórico e da individualidade dos cientistas. Isso pode ser até verdadeiro, contanto que sejam oferecidas evidências. No entanto, se um cientista tentar produzir algo pelos seus próprios interesses, ele infringe a norma ética do desinteresse, que diz que ele deveria, na verdade, agir em prol do interesse coletivo. Mesmo assim, tudo deve ser analisado não pela essência do que produziu, mas pela produção. Deve-se fazer uma análise minuciosa das evidências. Se elas forem sustentáveis, não há por que negar. Mas, se elas não forem, (e, certamente, não serão, visto que o indivíduo que as colocou possa as ter distorcido em prol do que ele mesmo pensa), tudo deve ser renegado. [Veja mais no texto A ciência é neutra? Seus resultados são baseados nos interesses pessoais dos cientistas?].

Frequentemente, tais conspirações levam, também, à aceitação de métodos de “cura” holísticos em negação à ciência, com o argumento de que ela é movida pelas grandes indústrias farmacêuticas. Essa afirmação é tão sustentável quanto “Fui na sua casa, roubei todas as suas coisas, levei para a rua, voltei e as coloquei do jeito que estavam. Você não percebeu porque estava dormindo”. Ambas situações remetem a postulados infalsificáveis e irrefutáveis. Não há como prová-los, mas isso não significa que estejam corretos. Outro bom exemplo disso é a metáfora bule de chá voador, de Bertrand Russell:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.

Uma coisa bem hilária é que esse argumento irrefutável pode simplesmente virar-se contra quem o fala. Eu posso dizer que “as indústrias farmacêuticas inventaram os tratamentos holísticos para ganhar dinheiro com a ignorância das pessoas”. É uma afirmação com tanto grau de verdade quanto a outra.

É importante salientar que não estou afirmando de maneira alguma que a ciência seja absoluta. Não! Na verdade, essa afirmação não é nem mesmo viável, considerando que a ciência é um processo, não uma ideologia. O que ela faz é seguir pelo caminho para o qual as evidências apontam. Vir-me-iam, então, com o argumento de que a ciência deve ser relativizada pelo fato de sofrer revoluções ao longo do tempo (como propôs Thomas Khun) e que os conhecimentos dela atuais devem ser tomados como errados simplesmente por poderem ser substituídos posteriormente. No entanto, há um equívoco grosseiro nessas afirmações. A ciência não sofre revoluções totais! Nenhum conhecimento científico renova-se em sua totalidade, principalmente, se houver um grande corpo de evidências em seu suporte.

Voltando-nos à metáfora da arma de duas lâminas de 7 parágrafos atrás, tenha ficado, talvez, evidente, pelas descrições, por que o primeiro gume é o mais amolado, restando-nos o segundo [debater-se com desonestidade]. Embora a desonestidade seja repugnante e execrável, ela é melhor do que recusar o debate. É melhor debater do que que não debater, pois, em algum momento, o conhecimento será alcançado a partir das discussões, mesmo que isso leve tempo. Certamente, mesmo os desonestos, após discutirem com alguém, procurarão por mais argumentos e, dessa forma, chegarão a conhecimentos concretos e sustentáveis. Dessa forma, acabarão por adquirir a capacidade de estabelecer discursos baseados na lógica formal e de, com certeza, assumir a própria ignorância para conhecer o mundo e admitir o próprio erro quando errado.

Obviamente, muitas pessoas, mesmo que debatam com desonestidade, não conseguem seguir o caminho supradescrito. Fica, pois, fundamental que eu fale que esse não é um padrão para todos, mas sim que, baseando-se em minha opinião pessoal e na metáfora das duas lâminas, a melhor forma que um leigo tem de alcançar o conhecimento é essa: debatendo. Portanto, o debate sobre qualquer tema pode tanto ajudar um sujeito a chegar a um debate honesto quanto melhor seu senso crítico, estruturando o ceticismo consciente e fazendo-o recusar filosofias mercenárias, escapistas e utilitárias e conhecimentos irracionais. Ao ter o ceticismo coerente concretizado, o sujeito consegue perceber tanto os equívocos epistemológicos das pseudociências quanto as falácias de seus postulados por meio da lógica formal (como, por exemplo, o argumento de autoridade). As discussões podem, também, provocar o mesmo processo nos espectadores e, talvez, de forma mais forte, principalmente se forem feitas por pessoas com um pouco mais de conhecimento.

Vale salientar, ainda, que, este artigo não visa à auto-ajuda nem à defesa à desonestidade. Nele, faço uma DISSERTAÇÃO e considero o indivíduo como se ele tivesse apenas dois caminhos a seguir. Mesmo que isso se repita várias vezes, não é um padrão – inclusive, provavelmente, nem para você, leitor. O único conselho que posso dar a você que esteja lendo esse texto – se estivesse objetivando auto-ajuda – é que tente, ao máximo, evitar a desonestidade no debate, sem, contudo, recusar o debate. O seu conhecimento será construído como consistente a partir dele (foi o que aconteceu comigo).

Receba atualizações em tempo real diretamente no seu dispositivo, inscreva-se agora.

Comentários
Carregando...