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Precisamos reduzir o carbono da atmosfera, não só acabar com as emissões

Originalmente publicado em Phys

 

Conseguir controlar as alterações climáticas é um desafio formidável e de muitas faces. Análises sugerem que para ficarmos em níveis seguros de aquecimento agora requer a remoção do dióxido de carbono da atmosfera, assim como a redução de emissões de gases de efeito estufa.

A tecnologia para fazer isso ainda é prematura e levará anos, até mesmo décadas, para se desenvolver, mas segundo as análises ela deve ser uma prioridade. Se pressionados, sistemas operacionais de grande escala devem estar disponíveis por volta de 2050.

Pesquisadores criaram um modelo de clima simples e observaram as implicações de diferentes níveis de carbono no oceano e na atmosfera. Isso os permitiu fazer projeções quanto ao efeito estufa, e ver o que é preciso ser feito para limitar o aquecimento global a 1.5°c de temperaturas pré-industriais – uma das ambições do Acordo de Paris de 2015.

Para pôr o problema em perspectiva, aqui estão alguns dos números chaves.

Os humanos têm emitido 1,540 bilhões de toneladas de gases de dióxido de carbono desde a revolução industrial. Para ver em outra perspectiva, isso é equivalente a queimar uma torre quadrada de carvão de 22 metros de largura, e com altura o suficiente para alcançar a lua.

Metade destas emissões tem permanecido na atmosfera, causando um aumento dos níveis de CO2 10 vezes mais rápido do que qualquer aumento natural conhecido na história da Terra. A maior parte da outra metade se dissolve no oceano, causando uma acidificação com os seus próprios impactos prejudiciais.

Apesar de a natureza remover o CO2, através do crescimento e enterramento de plantas e algas, por exemplo, nós o emitimos pelo menos 100 vezes mais rápido do que ele é eliminado. Não podemos contar com os mecanismos naturais para lidar com este problema: as pessoas também precisam ajudar.

Qual é o objetivo?

O acordo climático de Paris visa limitar o aquecimento global para menos de 2° C, sendo o ideal não passar de 1.5°c (outros dizem que o nosso objetivo deveria ser 1° C, apesar de o mundo já estar alcançando e rompendo com este marco).

Nesta pesquisa, 1° C foi considerado um limite de aquecimento mais seguro, por que se este limite for ultrapassado o nosso planeta voltaria a ter um clima como o do período Eemiano, de 125,000 anos atrás. Por motivos naturais, durante esta era a Terra esquentou um pouco mais que 1° C. Estudando este período podemos ver as consequências catastróficas de quando temperaturas globais ficam tão altas por períodos extensos.

Os níveis do mar durante o período Eemiano eram cerca de 10 metros mais altos do que os níveis atuais. Hoje, a zona entre 10 metros do nível do mar abriga 10% da população do mundo, e até mesmo o aumento de 2 metros no nível do mar iria desabrigar quase 200 milhões de pessoas.

Obviamente, empurrar o mundo em direção a um clima parecido com o do período Eemiano não é seguro. Na verdade, como 2016 foi 1,2° C mais quente do que a média pré-industrial, e com aquecimento extra sendo segurado por depósitos de calor nos oceanos, nós podemos já ter ultrapassado o limite médio de 1° C. Para manter o aquecimento menor que 1,5° C, como é o objetivo do Acordo de Paris, é vital que nós removamos CO2 da atmosfera, e também imponhamos limites quanto à quantidade que liberamos.

Então, quanto CO2 nós precisamos remover para prevenir um desastre global?

Você é um pessimista ou otimista?

Atualmente, as emissões da humanidade totalizam cerca de 37 giga toneladas de CO₂ por ano, o que representa 10 giga toneladas de carvão queimado (uma giga tonelada é um bilhão de toneladas). Nós precisamos reduzir esses valores drasticamente. Mas mesmo com fortes reduções quanto às emissões, ainda irá permanecer na atmosfera carbono o suficiente para causar um aquecimento perigoso.

Usando estes fatos, foram identificados dois cenários bruscos para o futuro.

O primeiro cenário é pessimista. Nele as emissões de CO2 continuam estáveis depois de 2020. Para conter o aquecimento em limites seguros, nós precisamos remover quase 700 giga toneladas de carbono da atmosfera e do oceano, que trocam livremente CO2. Para começar, o reflorestamento e um uso melhorado da terra podem prender cerca de 100 giga toneladas em árvores e solos. Isso deixa 600 giga toneladas a serem extraídas por meios tecnológicos até 2100.

Extração tecnológica atualmente custa pelo menos 150 dólares por tonelada. Por este preço, ao longo do resto do século, o custo totalizaria 90 trilhões de dólares. Isso é similar em escala ao gasto militar global atual, que – se continuar a cerca de 1.6 trilhões de dólares por ano – vai totalizar 132 trilhões no mesmo período.

O segundo cenário é otimista. Ele supõe que nós iremos reduzir as emissões em 6% a cada ano, começando em 2020. Nós então ainda precisaríamos remover quase 150 giga toneladas de carbono.

Como antes, reflorestamento e bom aproveitamento da terra podem dar conta de 100 giga toneladas, deixando 50 a serem extraídos tecnologicamente até 2100. O custo disse seria 7.5 trilhões de dólares – só 6% do gasto militar mundial.

É claro, estes números são um guia grosseiro. Mas eles conseguem ilustrar a encruzilhada na qual nos encontramos.

O trabalho está feito.

O momento de escolher é agora: se não tomarmos uma atitude, estaremos condenados ao cenário pessimista dentro de uma década. Nada é capaz de justificar deixarmos este fardo, de enormes custos, nas costas das futuras gerações.

Para obtermos sucesso em ambos os cenários, precisamos fazer mais do que desenvolver novas tecnologias. Nós também precisamos de novas estruturas internacionais éticas, politicas e legais para lidar com este uso desenfreado e os seus impactos ambientais inevitáveis.

Liberar grandes quantidades de ferro ou poeira mineral nos oceanos poderia remover o CO2 através da mudança na química ambiental e ecologia. Mas fazer isso requer que sejam revisadas as estruturas legais internacionais que atualmente proíbem tais ações.

Similarmente, certos minerais podem ajudar na remoção do CO2 por serem capazes de aumentar a erosão das rochas e enriquecer os solos. Mas a mineração em grande escala a procura de tais minerais impactaria paisagens e comunidades, o que também requer revisões regulamentares e legais.

E finalmente, capturar CO2 diretamente do ar depende de instalações de escalas industriais, com suas próprias repercussões ambientais e sociais.

Sem novos quadros legais, políticos e éticos, avanços significativos não serão possíveis, não importa quão extraordinários sejam os desenvolvimentos tecnológicos. Nações progressivas podem se avançar em direção à entrega do pacote completo.

Os custos são altos, mas países que pegarem as rédeas serão propensos a ganhar em termos de tecnologia, empregos, independência energética, melhor qualidade de vida e reconhecimento internacional.

 

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