Veja a bizarra história do primeiro astronauta japonês

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A imagem de um astronauta está em algum lugar entre um herói de ação da nossa infância e um prodígio da escola de engenharia treinado pela força aérea. Mas então, temos o primeiro homem japonês no espaço. Anos-luz na frente destes estereótipos, Toyohiro Akiyama era o improvável jornalista fumante que acabou fazendo uma viagem para a estação espacial soviética, MIR. Como um Forrest Gump japonês, seu nome pode não estar em muitos livros de história, mas sua história é estranha, engraçada, extraordinária, e relativamente desconhecida.

Este pedaço obscuro da história do espaço começa em 1989. A guerra fria estava esfriando e o Japão estava aproveitando a “Era da Bolha” de excesso econômico e decadência. Com a URSS afundando e a fortuna do Japão aumentando, o Tokyo Broadcasting System (TBS, sistema de transmissão de Tokyo),criou um plano maluco para celebrar e promover o aniversário de 40 anos da estação.

O plano envolvia uma façanha publicitária de proporções épicas, uma que só poderia ter ocorrido na virada transitória dos anos 90. Em 1989, Gorbachev estava em seu caminho para desarmar a URSS. A União Soviética estava perdendo misseis, dinheiro e poder. Mas, enquanto os Estados Unidos tinham passado mais de 30 anos tentando ultrapassar os Soviéticos no espaço, eles perceberam que poderiam usar a riqueza de faíscas brilhantes que trabalhavam no programa espacial soviético. Temendo que uma indústria aeroespacial-militar Soviética em colapso pudesse causar um grande êxodo de cientistas talentosos para todos os cantos do mundo, o ocidente queria manter a indústria funcionando e encorajou uma cooperação com o programa espacial da URSS.

Com a benção dos Estados Unidos, a TBS pagou 10 milhões de dólares para mandar um jornalista para a estação espacial MIR e gravar um programa de TV chamado Nihonjin Hatsu! Uchuu e, o que em uma tradução aproximada significa “o primeiro japonês no espaço!”. Uma ideia louca. Mas nada fora do esperado vindo da companhia que encomendou e transmitiu o show mais louco do planeta, “Takeshi’s Castle”.

Este não seria apenas o primeiro cidadão japonês no espaço, seria também o primeiro jornalista. Então para exercer este papel histórico, a TBS e os soviéticos decidiram mandar Toyohiro Akiyama, um jornalista de 47 anos que nunca tinha ao menos murmurado uma palavra em russo.

 

Climatologia Geográfica

 

Akiyama trabalhou como repórter durante a guerra do Vietnã e até mesmo trabalhou na BBC, em Londres, por um tempo. Mas, até aquele momento, suas experiências quanto ao espaço tinham se limitado às lentes da mídia, como em sua cobertura sobre o desastre da Challenger, em 1986.

Antes disso, o seu exercício mais exaustivo aparentemente era levantar seu cigarro à sua boca. No entanto, Akiyama passou um ano na vila de treinamento de cosmonautas, Star City, se submetendo a exames médicos, palestras e treinamento físico.

Na manhã de 2 de dezembro, em 1990, ele partiu para o espaço abordo da nave Soyuz TM-11, acompanhado pelos cosmonautas Viktor Afanasayev e Musa Manarov, seis câmeras e um mascote de brinquedo japonês.

Após dois dias de viagem, eles alcançaram a parada final: a estação Soviética espacial Mir. Seus dois colegas reportaram que “nunca viram um homem vomitar tanto”. Ele também reclamava constantemente dizendo que sua cabeça ia explodir a qualquer instante devido à pressão.

Mas o show deve continuar. No YouTube há algumas imagens do programa, mas não se sabe muitos detalhes sobre o que Akiyama enfrentou durante a sua semana no espaço, entre as ondas de náusea. Graças a uma reportagem da revista New Scientist, em 1991, nós sabemos que os sapos em que ele estava mexendo no vídeo eram parte de um experimento para analisar se “a falta de gravidade no espaço tinha algum efeito sobre a secreção de um neuropeptídio por glândulas do coração e do cérebro”, referentes a moléculas similares a proteínas que células usam para comunicação.

 

Após sete dias, 21 horas e 54 minutos de voo espacial, Akiyama retornou a terra, com piadas sobre querer comida de verdade e um cigarro.

Ele se aposentou como jornalista em 1995 e usou sua aposentadoria para comprar uma fazenda perto de Fukushima, deixando para trás sua carreira, família e amigos em Tokyo.

O encontro de Akiyama com a história ocorreu novamente durante os terremotos japoneses e o acidente nuclear de Fukushima em 2011. Como um resultado do desastre, ele foi obrigado a abandonar sua vida simples. Hoje ele ensina agricultura na universidade de arte e design de Kyoto, com uma visão intensamente filosófica sobre ambientalismo e um olhar cético sobre a indústria de agricultura moderna.

Como último golpe no navio soviético naufragando, a mídia ocidental o retratou como um bêbado infeliz, como um personagem de Woody Allen, se movendo neuroticamente pelo espaço. No entanto, sua reflexão sobre seu tempo no espaço prova que ele nunca foi este bobo do espaço que fizeram dele.

Em uma entrevista para o jornal Japan Times, em 2013, Akiyama falou sobre sua experiência olhando nosso planeta de fora e como isso inspirou sua decisão de abandonar sua vida em Tokyo: “Enquanto eu observava a terra a 400 quilômetros de distância, eu comecei a pensar sobre a história da humanidade e refleti sobre a repetição de atividades que nos ajudou a crescer, e chegar ao atual número de 7 bilhões de pessoas. Qual é a atividade humana mais básica? Comer. Eu me perguntei o quão seriamente eu já havia pensado sobre o ato de comer, ou sobre cultivar as coisas que comemos. Como os fazendeiros pensam sobre a comida que eles cultivam? Eu senti como se eu não pudesse morrer sem ter um conhecimento básico sobre estas coisas.”

Ele conclui: “O que mais me impressionou foi o quanto a terra brilhava em tons de azul, e como ele parecia uma forma de vida flutuando no universo. Ao mesmo tempo, me lembrei da finura da camada azul, ou seja, da atmosfera… Uma atmosfera tão fina protege todas as coisas vivas – florestas, árvores, peixes, pássaros, insetos, seres humanos e tudo.”

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