‘Células do tempo’ no cérebro humano codificam o fluxo do tempo, conclui estudo

por Lucas
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Imagine uma vasta biblioteca, onde cada livro é uma memória, organizada não por autor ou título, mas pelo momento em que ocorreu. É mais ou menos assim que nosso cérebro funciona, graças a neurônios especializados conhecidos como ‘células de tempo’. Descobertas em ratos e agora identificadas em humanos, essas células são a forma do cérebro de marcar cada memória com uma data, garantindo que nossas lembranças de eventos passados mantenham sua ordem cronológica.

A jornada para descobrir esses neurônios cronometristas em humanos é tão fascinante quanto a própria descoberta. Pesquisadores do Centro de Pesquisa em Cérebro e Cognição na França, liderados pela neurocientista Leila Reddy, embarcaram em um estudo único envolvendo pacientes com epilepsia. Esses indivíduos já tinham microeletrodos implantados em seus cérebros por razões médicas, permitindo à equipe um raro vislumbre do funcionamento interno do cérebro sem procedimentos invasivos adicionais.

Em um experimento cuidadosamente desenhado, os participantes viram uma série de imagens em uma ordem específica. A tarefa era memorizar essa sequência. Enquanto faziam isso, os eletrodos registraram a atividade dos neurônios em seu hipocampo – o centro de memória do cérebro. Os achados foram esclarecedores: certos neurônios dispararam não apenas em resposta às imagens, mas também durante as lacunas e pausas, sugerindo que seu papel se estendia além de reagir a estímulos visuais.

Esses neurônios, propôs a equipe, eram as elusivas células de tempo. Eles pareciam estar ativos não apenas em lembrar a sequência de imagens, mas também em marcar a passagem do tempo durante momentos de inatividade. Esse comportamento era particularmente notável porque indicava que essas células estavam codificando o tempo em si, independente de eventos externos.

Células de Tempo: Além da Cronometragem

Mas as células de tempo no cérebro humano não são unidimensionais; elas têm múltiplas funções. Elas não apenas marcam o tempo; também respondem a diferentes tipos de informações sensoriais. Essa versatilidade é crucial. Ela permite ao cérebro tecer juntos o ‘o quê’, ‘onde’ e ‘quando’ de nossas experiências, transformando entradas desconexas em memórias coerentes e cronológicas.

Por exemplo, considere uma memória simples como ir a uma cafeteria. O cérebro usa células de tempo para juntar os vários elementos: o cheiro do café, o som das conversas, o sabor do seu latte favorito e o tempo que você passou lá. Essa orquestração pelas células de tempo é o que permite que você se lembre dessa experiência como um evento único e fluido, completo com seus detalhes sensoriais e sequência temporal.

A descoberta das células de tempo em humanos tem implicações profundas. Ela lança luz sobre como nosso cérebro cria e lembra memórias, um processo essencial para nosso senso de identidade e compreensão do mundo. Além disso, abre novas vias para explorar como as memórias são formadas e possivelmente até como distúrbios relacionados à memória, como o Alzheimer, podem ser melhor compreendidos e tratados.

As descobertas são relatadas no The Journal of Neuroscience.

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