Por que não nos lembramos de quando éramos bebês?

por Lucas
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A amnésia infantil é um fenômeno comum vivenciado por quase todos, que se refere à nossa incapacidade de lembrar memórias da primeira infância. Apesar de muitos desejarem manter vivas suas primeiras memórias, como a voz da mãe ou a atmosfera de uma festa de aniversário na infância, essas lembranças muitas vezes permanecem inacessíveis. Esse fenômeno não é devido à falta de retenção de informações em crianças pequenas; é mais relacionado à maneira como seus cérebros processam e armazenam memórias.

Nos primeiros anos de vida, as crianças conseguem reter fatos, conhecidos como “memória semântica”. Elas reconhecem seus pais, entendem instruções básicas e lembram conceitos simples. No entanto, seus cérebros nessa fase ainda não estão desenvolvidos o suficiente para a “memória episódica”, que é a capacidade de lembrar eventos específicos em detalhes. Esse tipo de memória é complexo e requer a integração de informações de diferentes partes do cérebro.

Patricia Bauer, professora de psicologia da Emory University, oferece uma metáfora vívida para esse processo. Ela compara o córtex, responsável pelo processamento de vários tipos de memória, como auditiva e visual, a um canteiro de flores com o hipocampo no centro, entrelaçando essas memórias diversas como um buquê. O desenvolvimento do hipocampo é crucial para esse processo, e não é até entre os 2 e 4 anos de idade que ele começa a efetivamente ligar esses fragmentos de informação em memórias episódicas coerentes.

Nora Newcombe, professora da Temple University, sugere que em crianças menores que essa faixa etária, focar na memória episódica pode ser complexo e até distrair. O objetivo principal nos primeiros anos é adquirir conhecimento semântico sobre como o mundo funciona.

O Mistério das Memórias Perdidas

Enquanto tradicionalmente se pensava que essas memórias precoces não eram registradas, estudos recentes indicam um entendimento diferente. Por exemplo, um estudo de 2023 na revista “Science Advances” demonstra que o que parece serem memórias de infância esquecidas podem, na verdade, estar armazenadas, mas inacessíveis na vida adulta. Este estudo, conduzido em ratos, mostrou que memórias precoces poderiam ser reinstaladas em ratos adultos ao estimular caminhos neurais relevantes com luz.

O estudo inicialmente visava explorar fatores que influenciam a amnésia infantil e encontrou resultados intrigantes em ratos com características do transtorno do espectro autista (TEA). Curiosamente, esses ratos retinham memórias de seus primeiros dias, sugerindo uma ligação entre a retenção de memórias e condições neurodesenvolvimentais.

O autismo tem sido associado a várias causas, incluindo a superativação do sistema imunológico da mãe durante a gravidez. Os pesquisadores replicaram essa condição em ratos, levando a descendentes que não perdiam suas memórias precoces. Isso foi atribuído a mudanças no tamanho e na plasticidade das células de memória em seus cérebros. Além disso, quando essas células foram estimuladas opticamente em ratos adultos sem autismo, memórias anteriormente esquecidas foram revividas.

Essas descobertas lançam luz sobre a relação intrincada entre o desenvolvimento inicial do cérebro, a formação de memórias e condições neurodesenvolvimentais. Tomás Ryan, coautor do estudo e professor associado do Trinity College Dublin, sugere que essas descobertas podem revolucionar nosso entendimento dos processos de memória e esquecimento no desenvolvimento infantil. A pesquisa tem implicações significativas, não apenas para nossa compreensão dos processos de memória, mas também para a flexibilidade cognitiva no contexto do autismo.

Embora esta pesquisa ainda esteja em seus estágios iniciais e focada principalmente em ratos, ela abre novos caminhos para entender os mecanismos complexos de memória em humanos. O conceito de ‘interruptores de esquecimento’ inatos e sua reversibilidade oferece uma perspectiva empolgante sobre como poderíamos entender e potencialmente acessar essas memórias precoces da infância.

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