Fungos que comem radiação estão prosperando nas paredes dos reatores de Chernobyl

por Lucas
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O fenômeno dos fungos prosperando em ambientes altamente radioativos, particularmente aquelas espécies encontradas na zona de exclusão de Chernobyl, representa um exemplo notável da adaptabilidade da vida. Esta área, notória pelo desastre nuclear catastrófico de 1986, tornou-se um campo de pesquisa único para estudar organismos extremófilos, especialmente fungos. Cientistas identificaram cerca de 200 espécies de 98 gêneros de fungos nesta área, demonstrando uma diversidade impressionante.

Esses fungos não estão apenas sobrevivendo neste ambiente hostil; alguns estão até utilizando a radiação. Conhecidos como “fungos negros” ou fungos radiotróficos, esses organismos são distinguidos pelo seu conteúdo de melanina. A melanina, um pigmento também encontrado na pele humana, oferece proteção contra a radiação ultravioleta. Nestes fungos, ela desempenha um papel crucial na conversão da radiação gama em energia química, facilitando seu crescimento. Essa adaptação não só ajuda em sua sobrevivência, mas também permite que eles usem a radiação como recurso.

Arturo Casadevall, um microbiologista do Albert Einstein College of Medicine em Nova York, discutiu esses fenômenos com a Scientific American em 2007. Ele destacou a presença de organismos melanóticos em reatores nucleares comerciais, onde a água radioativa fica contaminada com esses fungos pigmentados de preto. O papel e impacto exatos desses organismos nesses ambientes permanecem em grande parte desconhecidos.

O local do desastre de Chernobyl provou ser um terreno fértil para pesquisas sobre como os organismos se adaptam a condições extremas. Entre os fungos que consomem radiação encontrados em Chernobyl estão Cladosporium sphaerospermum, Cryptococcus neoformans e Wangiella dermatitidis. Notavelmente, essas espécies podem suportar níveis de radiação ionizante aproximadamente 500 vezes maiores do que os níveis típicos de fundo. Pesquisas indicam que eles não apenas toleram tais altos níveis de radiação, mas parecem prosperar em sua presença, mostrando taxas de crescimento aceleradas.

Estudos posteriores observaram o comportamento desses fungos, notando que eles orientam seus esporos e hifas em direção às fontes de radiação, semelhante a alcançar comida. Esse comportamento sublinha uma possível adaptação evolutiva para capitalizar a radiação como recurso.

Kasthuri Venkateswaran, um cientista pesquisador sênior no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, falou ao Motherboard em 2016 sobre o surgimento inicial de fungos após o acidente de Chernobyl. Os cientistas ficaram intrigados com a forma como esses organismos poderiam prosperar em um ambiente tão radioativo. A pesquisa de Venkateswaran revelou que os fungos coletados do local do acidente tinham um conteúdo de melanina maior em comparação com aqueles de áreas fora da zona de exclusão. Isso sugere uma adaptação às condições radioativas. Ele estimou que até 20% desses fungos eram radiotróficos, ou seja, cresciam ativamente em direção às fontes de radiação.

A adaptabilidade desses fungos negros se estende além da Terra. Em 2016, oito espécies de fungos de Chernobyl foram enviadas para a Estação Espacial Internacional (ISS) a bordo de um foguete SpaceX. Esta missão visava entender como esses fungos toleram níveis extremos de radiação. A pesquisa também considerou o uso potencial desses organismos na exploração espacial. A capacidade desses fungos de prosperar em ambientes radioativos abre a possibilidade de utilizá-los como fonte de alimento para astronautas durante missões espaciais prolongadas ou na colonização de outros planetas.

A capacidade desses fungos de utilizar radiação pode levar a abordagens inovadoras em biorremediação, particularmente em ambientes contaminados por radiação. Além disso, o estudo desses extremófilos pode fornecer insights para o desenvolvimento de novos materiais e tecnologias para proteção contra radiação, tanto na Terra quanto no espaço.

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