Mudança dramática na África há 5.000 anos pode ser um aviso do futuro

por Lucas
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Há cerca de 5.500 anos, o norte da África foi atingido por uma séria mudança climática. O Saara expandiu consideravelmente, fazendo com que pastagens exuberantes, florestas e lagos desaparecessem. Os humanos não tiveram escolha senão migrar para locais mais acolhedores como montanhas, oásis e o vale do Nilo.

Com pouco espaço nas áreas férteis, os antigos tiveram que ser criativos na produção de alimentos e na organização de sua sociedade cada vez mais compacta. Não é coincidência que o antigo Egito, uma das primeiras grandes civilizações do mundo, tenha surgido nessa época.

Essa mudança drástica foi devido ao fim do “período úmido africano”, que manteve a região verdejante de 15.000 a 5.500 anos atrás. O fim deste período marcou um dos pontos de inflexão climática mais definitivos na história geológica recente. Para quem não sabe, um ponto de inflexão climática é como um interruptor da natureza; uma vez ativado, não há retorno, e o clima muda radicalmente.

Avançando para hoje, os cientistas ainda estão montando esse quebra-cabeça. Um estudo publicado na Nature Communications revela novas informações, mostrando que, antes de o norte da África se tornar árido, seu clima era indeciso, alternando entre dois estados antes de se fixar em aridez permanente. Esse fenômeno de “piscar” é uma novidade no nosso entendimento da história climática da Terra e soa o alarme para regiões atuais com padrões climáticos erráticos, sugerindo que elas também podem estar se aproximando de pontos de inflexão.

Quanto aos sinais de que um ponto de inflexão está próximo? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Com o aquecimento global esperado para atingir 1,5°C, possíveis pontos de inflexão podem fazer com que as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica cedam, recifes de corais tropicais se acabem ou o permafrost do Ártico descongele abruptamente.

Alguns especialistas acreditam que essas grandes mudanças enviarão sinais de alerta. Mas identificar esses sinais depende muito do tipo de ponto de inflexão e pode ser bastante interpretativo.

Para aprofundar, cientistas montaram uma equipe dos sonhos e focaram em Chew Bahir, no sul da Etiópia. Esse local já foi lar de um grande lago durante o último período úmido africano. Hoje, ele está praticamente desaparecido, mas sob o leito do lago seco há um tesouro de sedimentos, empilhados a vários quilômetros de profundidade. Esse sedimento guarda um registro detalhado das mudanças no nível do lago impulsionadas pelo clima.

A equipe perfurou até 280 metros de profundidade — sim, quase tão alto quanto a Torre Eiffel — e retirou centenas de tubos de lama, com cerca de 10 centímetros de diâmetro. Alinhados, esses tubos formam um núcleo de sedimentos que narra 620.000 anos de mudanças climáticas e ambientais no leste africano.

Aqui está o ponto crucial: pouco antes do fim do período úmido africano, houve 1.000 anos de idas e vindas entre condições super secas e úmidas. Foram identificados pelo menos 14 períodos secos, cada um durando de 20 a 80 anos e aparecendo a cada cerca de 160 anos. Isso foi seguido por sete fases úmidas, semelhantes em duração e frequência. Eventualmente, por volta de 5.500 anos atrás, a secura prevaleceu de vez.

Essa não foi apenas uma mudança climática comum. A frequência e intensidade desses ciclos úmido-secos foram extraordinárias, mostrando um dramático “piscar climático”. Interessantemente, isso não foi um evento isolado. O mesmo piscar ocorreu durante outra transição de úmido para seco por volta de 379.000 anos atrás, capturado perfeit

amente no mesmo núcleo de sedimentos.

Essa revelação é crucial porque prova que tais mudanças drásticas podem acontecer naturalmente, contrariando alegações de que ações humanas, como a introdução de gado ou novos métodos de agricultura, poderiam ter acelerado o fim do período úmido.

Além disso, o impacto desse piscar teria sido inconfundível para quem vivesse durante ele, ao contrário de mudanças mais lentas que se desenrolam ao longo de muitas gerações. Isso pode até explicar por que os registros arqueológicos da região durante essa transição são um amálgama, mostrando pessoas se movendo de acordo com os caprichos do clima.

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