Parte vital do seu corpo continuará vivendo anos depois de você morrer

por Lucas
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O corpo humano abriga uma comunidade complexa de trilhões de microorganismos, essenciais para a saúde durante a vida. Eles auxiliam na digestão de alimentos, produção de vitaminas essenciais e proteção contra infecções, entre outras funções críticas. Localizados predominantemente no intestino, esses micróbios residem em um ambiente estável e quente com suprimento constante de alimentos.

Após a morte, o destino desses micróbios simbióticos levanta questões intrigantes. A cessação da circulação e a falta resultante de oxigênio levam à autólise, onde as células começam a se auto digerir. As enzimas das células, que normalmente metabolizam carboidratos, proteínas e gorduras, começam a agir nas próprias células, incluindo membranas, proteínas e DNA. Essa degradação celular fornece uma rica fonte de alimento para as bactérias simbióticas. Sem a regulação do sistema imunológico e o suprimento constante de nutrientes do sistema digestivo, essas bactérias recorrem a essa nova fonte de nutrição.

Especificamente, a classe de micróbios conhecida como Clostridia torna-se significativa no processo de putrefação, onde se espalham pelos órgãos, digerindo o corpo de dentro para fora. Na ausência de oxigênio dentro do corpo, essas bactérias anaeróbicas dependem de processos como a fermentação, responsáveis pelos odores distintos associados à decomposição.

Do ponto de vista evolutivo, esses micróbios se adaptaram para sobreviver em um corpo moribundo, análogo a ratos abandonando um navio afundando. Eles utilizam o carbono e os nutrientes do corpo em decomposição para aumentar seus números, melhorando as chances de alguns sobreviverem no ambiente externo e encontrar um novo hospedeiro.

Se um corpo é enterrado, seus micróbios, juntamente com fluidos de decomposição, entram no solo, encontrando uma nova comunidade microbiana. Essa coalescência de comunidades microbianas distintas é um fenômeno natural comum, visto em vários cenários, como o crescimento de raízes de plantas, mistura de águas residuais com rios ou interações humanas como beijos. A dominância de uma comunidade microbiana sobre outra nessas misturas depende de vários fatores, incluindo a extensão da mudança ambiental experimentada pelos micróbios e os habitantes originais do ambiente.

O solo apresenta um ambiente de vida áspero devido à sua natureza altamente variável com fortes gradientes químicos, físicos, de temperatura, umidade e nutrientes. Ele já hospeda uma comunidade diversa de decompositores adaptados a essas condições, presumivelmente superando quaisquer novos entrantes microbianos.

No entanto, pesquisas indicam que as assinaturas de DNA de micróbios associados ao hospedeiro podem ser detectadas no solo ao redor de corpos em decomposição, na superfície e em sepulturas por períodos prolongados, levantando questões sobre sua viabilidade e atividade. Esses estudos sugerem que os micróbios do hospedeiro não apenas sobrevivem no solo, mas também cooperam com micróbios nativos do solo para auxiliar na decomposição do corpo.

Experimentos de laboratório mostraram que a mistura de solo com fluidos de decomposição contendo micróbios associados ao hospedeiro pode acelerar as taxas de decomposição além daquelas alcançadas apenas pelas comunidades do solo. Além disso, esses micróbios associados ao hospedeiro aprimoram o ciclo do nitrogênio, um processo crucial para a vida. O nitrogênio, predominantemente presente como gás atmosférico, é inacessível para a maioria dos organismos. Decompositores convertem formas de nitrogênio orgânico, como proteínas, em formas inorgânicas, como amônio e nitrato, que micróbios e plantas podem utilizar.

Essas descobertas implicam que micróbios humanos contribuem para a reciclagem de grandes moléculas contendo nitrogênio em amônio, subsequentemente convertido em nitrato por micróbios nitrificantes do solo. Esse reciclagem de nutrientes a partir de detritos é fundamental para todos os ecossistemas. Em ecossistemas terrestres, a decomposição de animais mortos, ou carniça, alimenta a biodiversidade e é um componente vital das teias alimentares.

Animais vivos, ao longo de sua vida, acumulam nutrientes e carbono de áreas extensas, depositando-os em um localizado localizado após a morte. Um único animal morto pode sustentar uma variedade diversa de micróbios, fauna do solo e artrópodes que prosperam em carcaças. Os necrófagos auxiliam ainda na redistribuição de nutrientes dentro do ecossistema.

Os micróbios decompositores transformam as concentrações de moléculas orgânicas ricas em nutrientes dos corpos em formas menores e mais biodisponíveis. Esse processo permite que outros organismos usem esses nutrientes para sustentar nova vida. O florescimento da vida vegetal próximo a animais em decomposição exemplifica visualmente essa reciclagem de nutrientes de volta ao ecossistema.

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1 comentário

Zulmar Lopes 08/01/2024 - 15:33

O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima. – Millôr Fernandes

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