Reveladas as origens das rochas que construíram os primeiros verdadeiros continentes

por Lucas
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A emergência dos primeiros continentes é um tópico que intrigou geólogos por anos, dada sua complexidade e as lacunas significativas em nosso entendimento. Cerca de 3,5 bilhões de anos atrás, quando a superfície da Terra havia esfriado o suficiente para formar uma crosta sólida, o planeta era predominantemente coberto por vastos oceanos com pouca terra à vista, exceto por pequenas ilhas vulcânicas que não sobreviveram ao teste do tempo. Hoje, remanescentes dessas peças continentais antigas podem ser encontrados em regiões como a Austrália Ocidental, o norte do Canadá e a Groenlândia, que desde então evoluíram para as massas de terra com as quais estamos familiarizados, enquanto outros continentes se formaram muito mais tarde, abrangendo centenas de milhões a bilhões de anos.

O Dr. Matthijs Smit e sua equipe na Universidade da Colúmbia Britânica embarcaram em uma jornada para desvendar esse mistério, focando no papel dos granitoides, um grupo de rochas ígneas de grão grosso, na formação da crosta continental primitiva. Essas rochas, especificamente tonalito, trondhjemita e granodiorito, coletivamente conhecidas como TTG, são consideradas cruciais para entender a composição e o desenvolvimento dos primeiros continentes.

“Rastreamos um conjunto específico de elementos-traço que não são afetados por alteração e preservam pristinamente assinaturas do magma original”, explica o Dr. Smit. Esse método permitiu que os pesquisadores contornassem os desafios impostos pelo estado fortemente alterado da crosta que tem quase quatro bilhões de anos, a qual passou por inúmeras transformações, tornando difícil discernir sua composição original e processos de formação.

A pesquisa sugere que a crosta inicial foi formada não apenas a partir de um sortimento aleatório de materiais, mas de uma rocha-fonte específica, provavelmente gabbro, conhecida por suas propriedades de resfriamento lento e rico conteúdo de magnésio e ferro. Essa percepção é crucial, pois fornece uma imagem mais clara de como a primeira crosta pode ter evoluído de suas origens fundidas para a fundação sólida dos primeiros continentes.

O Dr. Smit e sua equipe propõem um modelo onde as rochas TTG, juntamente com rochas mais jovens associadas a elas, resultaram de uma série de processos envolvendo o enterro lento, espessamento e fusão da crosta precursora, que provavelmente se assemelhava aos planaltos oceânicos de hoje. “A crosta continental estava destinada a se desenvolver da maneira que fez, porque continuou sendo enterrada mais profundamente e as rochas em sua base não tinham escolha senão derreter”, afirma o Dr. Smit, destacando a inevitabilidade dessa evolução geológica sob as condições da Terra primitiva.

Este modelo sugere que as temperaturas abaixo da crosta continental primitiva podem ter excedido 1.600°C (2.900°F), facilitando a fusão das rochas de base e a formação de magmas TTG. Esse processo, segundo os pesquisadores, poderia explicar a composição única das seções continentais mais antigas, que servem como a espinha dorsal dos continentes modernos.

O estudo desafia teorias anteriores que ligavam a formação das rochas TTG às primeiras zonas de subducção e ao início da tectônica de placas. O momento da origem da tectônica de placas permanece incerto, com algumas teorias sugerindo que ela pode ser mais jovem que os primeiros continentes, criando um paradoxo na linha do tempo geológica. No entanto, o trabalho do Dr. Smit oferece uma perspectiva diferente, indicando que o magmatismo TTG e o início da tectônica de placas podem não estar tão intimamente conectados quanto se pensava anteriormente.

“Curiosamente, muitas pessoas têm variedades desse tipo de rocha como uma bancada de cozinha”, observa o Dr. Smit, conectando os antigos processos geológicos ao ambiente humano moderno. Esse comentário sublinha a natureza onipresente dessas rochas, que, enquanto formavam a base dos continentes milhões de anos atrás, agora encontram um lugar nas casas ao redor do mundo.

No entanto, o uso de granitoides, incluindo granito, em mobiliário doméstico não está isento de preocupações. Investigações recentes sobre os riscos à saúde associados ao corte de pedra projetada, que levaram a um número significativo de fatalidades, sugerem que riscos semelhantes podem ser apresentados pelo corte de granito. Isso levanta questões sobre a segurança do uso de tais materiais em ambientes cotidianos, insinuando a relação complexa entre a humanidade e o mundo natural.

O estudo foi publicado em acesso aberto na revista Nature Communications

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