A Ilha das Cobras, em São Paulo, é tão perigosa quanto dizem?

por Lucas
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A Ilha da Queimada Grande, frequentemente referida como “Ilha das Cobras”, é uma pequena ilha na costa de São Paulo, Brasil, ocupando aproximadamente 43 hectares. Sua notoriedade advém, em grande parte, de sua densa população de uma espécie única de serpente, a jararaca-ilhoa. Essa espécie em particular fez da ilha um objeto tanto de fascínio quanto de medo.

A jararaca-ilhoa

Ao contrário do mito popular, que atribui a população de serpentes a esquemas de piratas para proteger tesouros enterrados, a verdadeira causa da alta densidade de serpentes é natural e enraizada na história da ilha. Cerca de 11.000 anos atrás, durante o início do período Holoceno, o aumento do nível do mar causado pelo derretimento de massas de gelo e pelo desintegração de correntes de gelo costeiras levou à separação da ilha do continente brasileiro. Esse isolamento geográfico preparou o cenário para que as serpentes jararaca-ilhoa evoluíssem de forma distinta de suas contrapartes do continente.

Um estudo de 2008 estimou que existem entre 2.000 e 4.000 víboras jararaca-ilhoa na Ilha da Queimada Grande. Apesar de seu número na ilha, a jararaca-ilhoa é listada como criticamente ameaçada na Lista Vermelha da IUCN, devido à sua existência estar confinada a essa única localização. “Populações insulares tendem a ser menos geneticamente diversas porque são mais propensas a passar por gargalos [números baixos de população], o que reduz a diversidade genética. A diversidade genética é importante”, explica Robert Aldridge, professor de biologia na Universidade Saint Louis.

jararaca-ilhoa

Stephen P. Mackessy, professor especializado em evolução, ecologia e toxinologia na Escola de Ciências Biológicas da Universidade do Norte do Colorado, esclarece sobre o caminho evolutivo dessas serpentes. “[A jararaca-ilhoa] é uma espécie insular que parece estar mais intimamente relacionada a uma forma continental – a [Bothrops jararaca] – e agora está isolada dessa espécie”, ele diz. O habitat limitado da ilha e uma abundância de aves, presa primária para essas serpentes, influenciaram sua evolução em termos de tamanho, potência do veneno e padrão de cor. “Se transportada para ilhas semelhantes na área, provavelmente prosperaria, mas simplesmente não chegou lá”, acrescenta Mackessy.

Ameaça ou exagero?

Apesar do perigo percebido, Mackessy sugere que a ameaça da jararaca-ilhoa aos humanos é frequentemente exagerada. “Nada do que vi sugere que a jararaca-ilhoa representa um risco maior para os humanos do que muitas outras espécies de víboras Bothrops – muitas das quais crescem consideravelmente mais”, ele comenta. “A ideia de que é excepcionalmente mortal é provavelmente um mito.” Embora não haja registro oficial de uma mordida de jararaca-ilhoa em um humano, especialistas acreditam que seu veneno hemotóxico poderia potencialmente causar sérios problemas de saúde, incluindo degeneração de órgãos, ataque cardíaco, paralisia muscular ou, em casos extremos, morte.

Felipe Grazziotin, cientista do Instituto Butantan, uma instituição brasileira de pesquisa biológica, concorda que o veneno da jararaca-ilhoa poderia afetar os humanos de maneira semelhante a outras espécies do gênero Bothrops. “Sim, elas são venenosas, potencialmente capazes de envenenar fatalmente um humano”, reconhece Mackessy, “mas […] com um pouco de cautela, alguém poderia facilmente navegar até mesmo pelas áreas mais ‘cobertas de serpentes’ da Ilha das Cobras.”

Turismo

Sobre o turismo na Ilha das Cobras, as opiniões entre os especialistas variam. Mackessy aconselha contra, não devido ao perigo inerente, mas devido aos riscos potenciais para indivíduos não treinados. “Eu realmente não acho que exista qualquer razão para que turistas possam acessar a ilha”, ele afirma. Mackessy, experiente no manejo de serpentes e extração de veneno, enfatiza que, embora tenha feito isso com segurança por mais de 35 anos, envolve risco significativo.

Por outro lado, Grazziotin vê um benefício potencial no turismo controlado. Ele sugere que envolver pessoas locais e fomentar o turismo pode ajudar na preservação a longo prazo da jararaca-ilhoa e do ecossistema único da ilha. “Uma maneira inteligente de proteger essas ilhas [e animais] seria envolver pessoas locais, fomentando o turismo e o conhecimento adequado da incrível biodiversidade que temos”, ele propõe.

Fonte: Discover Magazine

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